Saluba Nanã!!!

Eu sou tão velha quanto a terra
Fui mulher do senhor Funfun
Dei a luz ao uma criança doente e ferida mas que se tornou o mais belo orixá, Obaluaye
Pari um bebê lindo e encantador mas sem cor, uma cobra ele se tornou e o Arco-íris virou, Oxumare.
A luz eu dei a uma menina tão pura e inocente, linda caçadora e cobra se transforma, Ewa.
Um rapaz quieto e misterioso eu coloquei no mundo, com o dom de dominar as folhas e seus segredos, Ossanhe.
Quando saiu de meu ventre eu sentir que ela teria o dom de amar verdadeiramente e ela foi capaz até de se mutilar por um amor mas guerreira e caçadora se tornou e a própria sociedade criou, Oba.
Ela pulo de meu ventre, desde bebe era um furacão e seu choro mexia com os ventos e raios caiam do céu, hora borboleta e hora búfalo, minha menina travessa e tão bela, Oya
Minha família se chama Ji.
A família da terra
Somos os Carijebes
Somos a palha
Somos a humildade
Somos o pé no chão
Somos o próprio chão
Somos a terra viva
E eu? Quem sou?
Sou lama
Sou água parada
Sou vida e morte
Me chamam de ranzinza
Talvez seja
Mas sou mãe que cura o filho que pede amparo
Moro no lodo
Vivo no barro
Não faço uso de nenhum metal
Só utilizo o Ibiri
Onde guardo o segredo da morte
Meu nome é Nanã
A mãe dos seres humanos
Dei e dou a matéria mas a pego de volta quando chega a hora
Salubá Nanã!

Iaôs – Filhos Ancestrais

Ìyàwóiyawôyao e iaô são palavras de origem iorubá que designam os filhos de santo no candomblé já iniciados na feitura de santo, mas que ainda não completaram o período de 7 anos da iniciação. Só após os 7 anos, o iaô se tornará um egbomi (“irmão mais velho”). Antes da iniciação, são chamados de abíyàn ou abian.

wikipedia.org

Partida de Iyá Stella de Oxossi

O dia que a Iyá Stella partiu para o orun foi numa quinta-feira, dia 27/12/2018. Coincidência ou não, dia de Oxossi, seu pai. Para uns coincidência para nós um chamado. Do Rei de Ketu. Nós, em sua maioria, não estamos preparados ou acostumados o suficiente com a partida física eterna, por mais espiritualizados que sejamos. Queremos ter sempre as pessoas que amamos, que admiramos e respeitamos, por perto. E temos a consciência de que a única certeza da vida é a morte. Chegou a hora de sua partida Iyá Stella. Foram 93 anos de vida no aiyê. Muitos anos também dedicados a religião, aos filhos, a fé. Muitas lições, muitos conhecimentos e ensinamentos compartilhados, muitos conselhos, muito carinho dado e com reciprocidade. Aquela Mãe que iniciou muitos filhos e acolheu outros mais, como uma verdadeira mãe faz. Cumpriu sua missão. Agora é tempo para descansar. E nós que ficamos devemos honrar seu legado e continuar em frente. Mantendo a fé, a união, o respeito e lutando por nosso povo e nossa religiosidade. A partida é dolorosa, sua presença e ensinamentos farão falta, mas a senhora precisava descansar. Aqui ficaremos com saudades. Tornastes nossa ancestral, uma luz que nos guiará de alguma forma. Nossa eterna estrela azul. Adupé Iyá Stella. Adupé Ilê Asé Opô Afonjá. Bênção!!!

(Por Ekede Lu de Nanã, em nome de nossa Iyá Lúcia Omidewá e todos que fazem parte do Ilê Asé Opô Omidewá).


 

Paraibanos enfrentam mil quilômetros e vigília noturna por Mãe Stella

Velório da ialorixá ocorreu no barracão de Xangô, no Opô Afonjá. 

Leiam a matéria no link/fonte abaixo.

FONTE: Correio24horas

15 anos da RENAFRO

A RENAFRO – Rede Nacional das Religiões Afro-Brasileiras e Saúde foi criada a 15 anos e a comemoração será nos dias 25 e 26 de junho de 2018, no Rio de Janeiro. Haverá no dia 25 uma homenagem ao Ogan José Marmo Silva (in memoriam), ex-coordenador geral da RENAFRO, que partiu para o Orun em setembro de 2017. Na referida homenagem, que acontecerá na Assembléia Legislativa/RJ, será entregue a Medalha Tiradentes José Marmo à profissionais de destaque na promoção da saúde.

Já no dia 26  acontecerá o Seminário 15 Anos Renafro, no Mirador Hotel, em Copacabana. Os temas de destaque nas mesas são Renafro Saúde: uma história de conquistas das tradições de matriz africana no BrasilPolítica Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN) e o enfrentamento ao racismo religioso e Desafios e Perspectivas.

Estarão presentes coordenadores estaduais e coordenação nacional da RENAFRO, prestigiando essa bela e merecida homenagem ao seu idealizador e comemorando a vida desta Rede que tem como objetivo valorizar e utilizar os saberes dos terreiros em diálogo com o Sistema Único de Saúde (SUS), além de se envolver com o desenvolvimento de políticas públicas para o setor.

Estarão presentes neste evento, representando a Paraíba, Iyá Lúcia Omidewá e Ekede Lú de Nanã.

Mulheres!!!

DAS MULHERES EMPREENDEDORAS DA CIVILIZAÇÃO AFRICANA ÀS BAIANAS E BRASILEIRAS DE HOJE!
As mulheres africanas, criaram sistemas de matemática através de seus ciclos menstruais e ciclos das luas, que orientavam o tempo e a economia, passando pela agricultura, comércio, alimentação, construção e outras tradições e desenvolvimento.
Por aqui para não se perderem dos seus bens civilizatórios e culturais, as ganhadeiras foram e são referências, que vendem acarajé, peixe, serviços, conhecimentos, saberes, modas, belezas, tecnologias e outras vias de fortalecimento da vida humana e das comunidades.
Dos sistemas matemáticos de milênios as inovações, os vãos de desenvolvimento se fazem, e temos de quebrar paradigmas separatistas, escravistas, elitistas, decadentes, “ideológicos”, do auto flagelo social e cultural, que tem nos roubado perspectivas e curas.
Empoderar-se por outro olhar, fazer, sentir e viajar neste novo, que integra o passado e futuro, nos dando um presente de lutas, presente de conquistas, presente de amor, presente de vida, presente de empreender o novo e fazer Egito e Bahia, Africa e Brasil, feminino destino que nos trouxe a Nova Era, com referencias civilizatórios que estão nas piramides e feiras livres, com honra e conhecimento milenar, para empreender uma nova esfera.

Nesta Terra Mulher, onde moramos, Faça diferença com aquilo que você é e traz!

(Desconhecido)

Assim nasce um Orixá em nós

ASSIM NASCE UM ORIXÁ EM NÓS

Se iniciar na magia do orixá é possibilitar através de rituais próprios que o lado divino da criatura transpareça; é libertar o Deus Interior que existe em cada ser humano, permitindo-lhe vir a tona e provocar impulso irresistível capaz de conduzir a individualidade à realização pessoal, estabelecendo dessa maneira a mais perfeita comunhão possível com o Universo, coma Natureza, com o Criador, enfim, com a própria Vida, em seu pulsar infinito.
Corpo físico, mente e alma são ritualisticamente preparados para componentes da manifestação divina. Condições propícias são estabelecidas para que a memória ancestral possa florescer nos recessos do inconsciente, produzindo muitas vezes o transe, em suas mais variadas formas e também variados graus. “Fazer santo” é nascer de novo, renascer como indivíduo mais forte, completo, potencialmente seguro, com melhores condições para, ao abandonar medos, traumas ou bloqueios, lançar-se inteiro na busca da realização pessoal.

Conhecer a si mesmo: pressuposto básico para a realização pessoal em todos os níveis.
Desde sua origem o ser humano anseia pelo encontro com o Infinito. Essa busca incansável frequentemente provoca verdadeiras batalhas que são travadas no interior do indivíduo, acompanhadas por sentimentos de angústia, ansiedade, inconformismo ou até mesmo desespero frente ao desconhecido ou ao irremediável: as fatalidades e incertezas do amanhã, o ciclo da vida, a morte. Todo esse processo destina-se a criação de ambiente propício ao tão sonhado encontro.
A história da humanidade espelha essa incansável busca de respostas aos enigmas da vida: Quem sou eu? De onde venho? Para onde vou? A felicidade é perseguida por todos, sendo muitas vezes um desejo alimentado pela incerteza: “Quero ser feliz, mas não sei bem o que é felicidade”. E o ser humano continua a colocar a própria felicidade longe de si mesmo, em circunstâncias exteriores: dinheiro, posição, poder, fama, ou na dependência de outras pessoas: “Se ele – ou ela – me amar, serei feliz”.

Há milhares de anos, o nativo do continente africano já tinha os mesmos anseios: conhecer seu Deus, os mistérios do Universo, a origem da Vida. Olodumárè (o Criador), em sua Graça e Poder infinitos, permitiu-lhes conhecer a sabedoria do IFA (a revelação): a Criação do Universo e dos seres humanos, os princípios que regulam as relações entre Ilú Aiyé (a Terra) o Orún (mundo espiritual) e o conhecimento dos Òrìsa, divindades partícipes da Criação e intermediárias entre Deus (Olodumárè) e os homens. Desenvolveram-se rituais iniciáticos para os mistérios dos Òrìsà, como forma de realizar o sagrado em si mesmo, ou seja, permitir que o Deus Interior, na figura de um ancestral divino, desperte em cada indivíduo e estabeleça a ponte com o Cosmos, tão necessária à realização pessoal, tornando-o assim capaz de fazer escolhas mais acertadas e consequentes em relação à vida e aos semelhantes, na construção da própria felicidade.

A compreensão clara de que destino é possibilidade e não fatalidade é a base dessa realização. O conhecimento das forças que regem o Universo e a Vida nas suas mais variadas formas e meios de manifestação, bem como dos princípios que regulam essa interação é o caminho da Iniciação.

O momento do chamado é diferente para cada pessoa.. Para alguns, uma doença difícil de ser curada: outros, as dificuldades do próprio caminho; outros ainda, buscam fugir às religiões tradicionais por concluírem que muitas delas estão tão voltadas para o dia a dia dos homens e seus interesses imediatos que acabam fugindo à sua real finalidade: promover o encontro do ser com a Divindade, ampará-lo em suas dificuldades espirituais e consequentemente, também as materiais.
Alguns ainda são provenientes de outras religiões ou filosofias espiritualistas; finalmente, existem aqueles que simplesmente são tocados pelo Òrìsà, nos recessos da própria alma.
Muitos são descendentes de africanos, mas não é regra. Na África o culto está realmente ligado às famílias, mas no Brasil, principalmente a miscigenação, trouxe para toda a população a denominação afro-descendente.

A iniciação (feitura) propriamente dita acontece num período de reclusão que varia de sete a dezessete dias (embora alguns lugares adotem 21). Essa reclusão (recolhimento) ocorre nos Templos Religiosos conhecidos como Casas de Candomblé, em aposentos próprios para tal finalidade. Esse período é comparável a gestação na barriga da mãe; nesse aspecto, o aposento sagrado representa o ventre da própria mãe natureza. O neófito aprende os mistérios básicos das divindades e da Criação; os costumes da comunidade e os princípios que regulam as relações da família religiosa (hierarquia sacerdotal); as formas adequadas de comportamento nas cerimônias públicas e restritas. Conhecimentos acerca de seu próprio Òrìsà lhe são ministrados: a maneira adequada de cultuá-lo, suas proibições (ewò), as virtudes que deverão ser cultivadas e os vícios que deverão ser evitados para atrair influências benéficas e uma relação harmoniosa com a divindade pessoal.

Quando um espírito vai encarnar, são consultados os futuros pais, durante o sono, quanto à concordância em gerar um filho, obedecendo-se à lei do livre arbítrio. Tendo os mesmos concordado, começa o trabalho de plasmar a forma que esse espírito usará no veículo físico. Esta tarefa é entregue aos poderosos Espíritos da Natureza, sendo que um deles assume a responsabilidade dessa tarefa, fornecendo a essa forma as energias necessárias para que o feto se desenvolva, para que haja vida. A partir desse processo, o novo ser encarnado estará ligado diretamente àquela vibração original. Assim surge o ELEDÁ desse novo ser encarnado, que é a força energética primária e atuante do nascimento.

Nesse período, os Elementais trabalham incessantemente, cada um na sua respectiva área, partindo do embrião até formar todas as camadas materiais do corpo humano, que são moldadas até nascer o novo ser com o seu duplo etérico e corpo denso. Após o nascimento, essa força energética vai promovendo o domínio gradativo da consciência da alma e da força do espírito sobre a forma material até que seja adquirida sua personalidade por meio da Lei do livre Arbítrio. A partir daí essa energia passa a atuar de forma mais discreta, obedecendo a esta Lei, sustentando-lhe, contudo, a forma e energia material pela contínua manutenção e transformação, no sentido de manter-lhe a existência.

Acreditamos que ao nascer, trazemos conosco o orixá orí, que é formado pelo “eu”, mais as experiências adquiridas durante sua vida, esse orí determina tudo dentro do orixá, dizemos “ory bom, orixá bom”, porque é ele que vai permitir a entrada de qualquer energia para positivar esse orí. Um exemplo: uma pessoa que está com stress ou está muito ansiosa, o Borí vai trazer uma energia positiva, assim alterando o estado dessa pessoa, para calma e menos ansiosa.

Não adianta dar nenhuma obrigação a sua cabeça, sem que antes seja feito o borí, pois ele prepara para receber a obrigação plenamente.

E como? O Borí é um ritual, onde são colocados elementos que trazem símbolos e elementos com energia boa, como a fruta, que tem o significado de fartura ou até mesmo o ebò (canjica branca), que significa paz, e assim por diante. São entoados cânticos ao orixá orí, que contam como orí é importante na formação de uma pessoa. São cantadas também cantigas a Yemanjá, considerada dona de todos os orís e Oxalá, o pai de todos orixás e senhor da paz.

“A sensação, depois do borí, eu posso descrever, é como se você tivesse carregando um peso nas costas durante um dia inteiro e quando chega a noite e você tira esse peso das costas e o que acontece? Você sente vontade de descasar, sente um alivio”. Muitas pessoas sentem isso, e algumas sentem um sono muito grande.

O uso de uma palavra que significa “dono da cabeça” (ORI-XÁ) mostra a relação existente entre o mundo e o indivíduo, entre o ambiente e os seres que nele habitam. Nossos corpos têm, em sua constituição, todos os elementos naturais em diferentes proporções. Além dos espíritos amigos que se empenham em nossa vigilância e auxílio morais, contamos com um espírito da natureza, um Orixá pessoal que cuida do equilíbrio energético, físico e emocional de nossos corpos físicos.

Nós, seres espirituais manifestando-se em corpos físicos, somos influenciados pela ação dessas energias desde o momento do nascimento. Quando nossa personalidade (a personagem desta existência) começa a ser definida, uma das energias elementais predomina – e é a que vai definir, de alguma forma, nosso “arquétipo”.

Ao Regente dessa energia predominante, definida no nosso nascimento, denominamos de nosso Orixá pessoal, “Chefe de Cabeça”, “Pai ou Mãe de Cabeça”, ou o nome esotérico “ELEDÁ”. A forma como nosso corpo reage às diversas situações durante esta encarnação, tanto física quanto emocionalmente, está ligada ao “arquétipo”, ou à personalidade e características emocionais que conhecemos através das lendas africanas sobre os Orixás.

Orixá é uma manifestação de dentro para fora, do Eu de cada um ligado ao orixá divinizado.

(Texto copiado… Autor desconhecido)

Omidewá: 60 anos com muito axé!

Omidewá: 60 anos com muito axé!

No último dia 6 de janeiro de 2018, Mãe Lúcia Omidewá de Oxum, aniversariou seus 60 anos neste Àiyé. A Coluna parabeniza essa importante Ialorixá paraibana, nascida em Sapé, que construiu uma trajetória das mais destacadas dentro do universo daquilo que passamos a chamar de religiões de
matriz africana, fundando em João Pessoa o Ilê de candomblé vinculado em seus fundamentos sagrados com o Ilê Axé Opô Afonjá, centenário terreiro da capital baiana, cujo patrono é o Orixá Xangô, o grande Alafin de Oyó da Nigéria. Mãe Lúcia chega aos 60 anos com uma maturidade religiosa que poucas lideranças religiosas possuem. Desde que a conheci, há cerca de dez anos, tenho acompanhado seu trabalho social relevante, especialmente no campo da segurança alimentar, tendo se tornado referência nacional no âmbito das ações de controle social de políticas públicas de combate à fome.
Além dos afazeres religiosos, a senhora Omidewá tem atuado fortemente no acompanhamento público da saúde da população negra, compondo na Paraíba a Rede de Saúde nos Terreiros. Antenada, atuante e proativa, Mãe Lúcia tem sido uma guerreira intransigente na defesa dos direitos humanos e das religiões afroameríndias.

A esta fiel zeladora de Xangô, desejamos para nossa Iyá que os Orixás lhe conceda muita saúde e discernimento, para que seu trabalho social e sua ação com o Sagrado se prolongue por muitas e muitas décadas.

Coluna Elejó – Por Dalmo Oliveira (Ogan do Ilê Asè Opô Omidewá)

Publicado no Jornal A UNIÃO (João Pessoa, Paraíba – Domingo, 14 de janeiro de 2018).

OKÀN MIMO

OKÀN MIMO!

Palavra composta de muitos sentidos, possuidora da enormidade de nossos sentimentos.

O maior ebó do mundo é o coração, pois quando o coração aceita, ocorre a distribuição da energia e Ori (cabeça) e o Àrá (corpo) se juntam em uma única sintonia despertando a força divina que habita cada ser humano.

Coração puro, coração aberto, limpo e livre da maldade, da cobiça e do negativo.
E é exatamente nesse contexto que começamos a perceber o valor de um abraço.

O ponto mais forte da energia, a ligação do amor, do que faz o sangue pulsar nas veias.
Muito mais que um simples abraço, é a união de dois corações.

Um abraço de um amigo, de um irmão: as bençãos trocadas.
Um abraço de mãe, de pai, de filho: o elo do amor fraterno e eterno.
São tantos tipos de abraço, curtos, longos, mas todos deixam-se tocar pelo coração.

Mas, se o orixá te abraça, nem que por um breve momento, é como se ele afirmasse: “Junto meu amor ao seu”.
E neste instante é possível perder o chão, viajar por longos mundos, se emocionar, sorrir e agradecer em um simples momento de acalanto do orixá.

Quem recebe nos braços, abre o coração.
Quem se entrega e se dedica ao orixá, abre o coração.
Quem é de axé, possui Okàn Mimo.

E não importa a roupa, o adereço, o lugar.
Ser de orixá é muito mais sobre fé, resistência, coragem e postura.

Nem tudo pode ser escrito, ensinado, explicado e nem mesmo o maior professor poderá um dia ensinar tudo.
Mas somos livres para sentir e livres para disseminar a energia emanada de nossos ancestrais.

Só recebe o axé, os de coração puro, limpo e aberto.

Okàn Mimo à todos de Àsè!!!

HUNXWÉDÓXÓ E ASIHUHU – MORTE E RESSUREIÇÃO DA HUNSÒ

HUNXWÉDÓXÓ E ASIHUHU – MORTE E RESSUREIÇÃO DA HUNSÒ

“ressuscitação de uma mulher morta há sete dias”

Um grito de dor após o ritual em homenagem a Sakpata. A moça, que estava clinicamente morta, volta à vida. Marcando o ponto culminante da festa de ressurreição, uma das cerimônias mais importantes entre os fons do Danxòmè.

Um povoado africano, em meio à densa floresta tropical do Daxòmè. As casas circundam um espaço vazio, espécie de praça central. Tudo é ainda silêncio, e ninguém permanece na praça. Mas o dia de hoje não é como os outros. De repente, do interior de uma das casas maiores, uma espécie de convento, ouvem se gritos lancinantes de mulheres. Como que despertados por esses gritos, os atabaques começam a tocar. É preciso esperar. Os demais habitantes que não são iniciados, têm que aguardar o término da cerimônia de adoração a Sakpata, feita no interior do convento, e assistida apenas pelos Sakpatanò. Logo após, no meio da praça, todos assistiremos à demonstração do poder de Sakpata. Sakpata vai ressuscitar uma jovem, clinicamente morta há sete dias.

O relato deste ritual só foi possível por muita dedicação e um pedido do Kòkpon (Rei do Allada) aos Sakpatanò do Danxòmè que devem submissão. Esta festa seria o iniciação da iniciação dos Sakpatasi que no Brasil, seria o acordar do “bolar”.

Num instante, os atabaques param de tocar. Cadeiras e bancos são trazidos para a praça central, e os habitantes reúnem se em círculos. Entre eles encontram se os familiares da jovem “morta”, que trouxeram oferendas a Sakpata, a fim de que este traga sua filha de volta de seu reino.

O lento despertar do reino da morte. Os huntò já saíram do convento, e tomaram lugar entre as cadeiras, com seus instrumentos seguros entre as pernas. Recomeçaram a tocar, mantendo o mesmo ritmo, constituindo um estranho e estimulante fundo musical (daahun)

Agora, são as Sakpatanò que chegam, facilmente reconhecidas pelas inúmeras cicatrizes que ornam sua pele. Com a cabeça raspada, elas se enfeitam com braceletes e colares feitos principalmente de akwè. Além de enfeites, esses objetos têm um importante significado ritualistico. Todas trazem na fronte uma fita ornada com plumas de papagaio: sinal que distingue as sacerdotisas de Sapata. Depois, são os vodunò, azétò, que entram na praça. Em seguida, chega o corpo da jovem morta enrolado num lençol imaculado, carregado por quatro homens. No centro da massa humana reunida, foi deixado um espaço livre sobre o qual ninguém pisa. Neste espaço, o corpo é depositado, e desnudado. A jovem não apresenta nenhuma manifestação de vida. Não respira, não se move. A pele adquiriu uma tonalidade cinza, e apresenta diversas feridas purulentas. Os sacerdotes trazem uma grande cabaça cheia de água, na qual foram mergulhadas diversas plantas (amasin).

O canto das mulheres recomeça, monocórdico. Lava se o corpo da jovem com a água da cabaça (kasin). Ao mesmo tempo, as sacerdotisas libertam se de seus atributos, e começam a massagear o corpo. O lençol é umedecido, e usado por momentos como sudário.

O trabalho de massagem dura cerca de duas horas, onde se repetem os mesmos gestos e cantos. Algumas pessoas jogam moedas sobre o lençol. Ninguém fala. Pouco a pouco o corpo retoma sua cor normal, negra, mas permanece sempre inerte.
A certo ponto, o silêncio se faz mais profundo. As sacerdotisas se afastam. Chega o lider dos feiticeiros (Azétònò), que se ajoelha ao lado da jovem, inclina se sobre seu ouvido, e grita seu nome com todas as forças. “Ele deve chamá-la sete vezes”, diz meu guia e companheiro. E, fora esse grito que se repete, nenhum outro ruído afasta o pesado silêncio. Sete vezes, e nada acontece! Um sobressalto percorre a multidão.

Um oitava vez o nome da jovem é gritado pelo feiticeiro. E, então, ela gemeu! Todos nós somos testemunhas: ela gemeu.

O atabaques e os cantos se desencadeiam: Sakpata aceitou que a jovem se torne mais uma sakpatasi. Imediatamente, a moça tem sua cabeça coberta, e é retirada para o interior do convento. Sua iniciação começou, e ela não deverá ver o mundo exterior.

No povoado, a festa vai continuar durante todo o dia e toda a noite. Todos vão comer, beber, dançar e rir muito, contagiados pela típica alegria africana, um estado de espírito que tudo arrasta à sua passagem.
O ritual para ressuscitar é apenas uma parte ínfima dos complexos processos de iniciação ao culto de Sakpata, QUE DURA PELO MENOS TRÊS ANOS. Período durante o qual os jovens discípulos são completamente isolados do mundo exterior.

A cerimônia da ressurreição é, de fato, primordial. O chamado ao novo “filho” do vodun é feito pela própria entidade (que se apodera de seu corpo provocando profundos transes mediúnicos), ou decidido pelos familiares ou pelos outros sacerdotes. A idade média de iniciação, tanto para moças como para rapazes, VARIA DE OITO A DEZESSEIS ANOS. Os dois sexos, se bem que em habitações diferentes, seguem mais ou menos os mesmos ritos e etapas iniciáticas.

Desde sua entrada, o jovem discípulo entra num estado de morte aparente, onde cessam todas as suas funções vitais. DURANTE SETE DIAS, ELE VAI PERMANECER NO LOCAL SEM RECEBER NENHUMA ALIMENTAÇÃO, BEBIDA, OU CUIDADO. JÁ NESTA PRIMEIRA ETAPA, OCORRE UMA SELEÇÃO NATURAL: ALGUNS, APÓS SETE DIAS, DESPERTAM, E OUTROS, NÃO. ESTES ÚLTIMOS SAKPATA NÃO OS QUER PARA SERVI-LO NESTE MUNDO, E POR ISSO OS GUARDA JUNTO DE SI.

Três anos, e Sakpata tem mais um sacerdote Após serem cuidados, e postos em boas condições físicas, OS JOVENS ESCOLHIDOS IRÃO APRENDER A LINGUAGEM SECRETA DOS INICIADOS (HUNGBÉ), os cantos, danças, as diversas operações mágicas. Serão feitas cicatrizes em seu corpo (hunkan), principalmente na fronte, costas, ventre e braços. A cada corte que produzirá uma cicatriz, será proferida uma prece, e um pouco de pó à base de plantas carbonizadas será depositado no interior da carne (bó).

Cada uma delas destina se a proteger o iniciado contra a feitiçaria, os inimigos, e também a lhes dar poder e direta ligação com o grande orixá.

Os discípulos deverão também aprender as propriedades de cada planta mágica ou medicinal, propriedades que tanto podem ser boas como maléficas. Os remédios, as poções, amuletos, não mais terão segredos para eles. Entre essas operações, uma das mais respeitadas e temidas é a cultura do vírus da varíola.

Eles conhecerão cada deus animista, cada ser da natureza, e as cerimônias a eles relacionadas. Mais tarde, para os rapazes, após passarem outras temporadas em reclusão, será permitido servir também a outros desses deuses.

Ao término da iniciação, rapazes e moças retomarão sua vida normal, mas estarão sempre à disposição do grande feiticeiro para os rituais. Periodicamente, retornarão aos conventos durante algumas semanas.

(Texto baseado em uma matéria do jornalista francês Robert Grainville).

Awùrépépé – Jambú

Awùrépépé (Spilanthes acmella – Jambú/treme treme)

Hoje vou falar sobre uma folha muito importante dentro do culto aos orixás, o jambú. Nas casas de Candomblé Ketú recebe os nomes de awùrépépé, éurépepe ou ainda oripépe. Pela sua importância é tida como uma planta de oro, ou seja, de fundamento. Folha ligada aos mistérios da Deusa da Fertilidade, Oxum. Às vezes é confundida com o bánjókó (Acmella brasiliensis), erva também consagrada a Senhora dos Rios. Suas flores são consagradas a Exú, orixá da procriação, aquele que promove as uniões. O jambú costuma crescer em regiões úmidas, estando também, de certa forma, associado a Oxalá, o Senhor da Criação. Quando observamos esses três aspectos ligados a essa planta (Fertilidade/Procriação/Criação) conseguimos entender porque ela é tão importante no processo de iniciação de um iyawo. Oxum é o grande útero que povoa o mundo. Exú é aquele que faz o possível (e o impossível) para que esse útero seja fecundado, cabendo a Oxalá permitir que possamos ser criados no mundo espiritual (orun) e assumir o nosso papel no ayé (mundo dos vivos). Podemos dizer que essa folha carrega em si essa força, que permitirá o nascimento do iyawo dentro do culto aos orixás. O jambú é uma planta tipicamente brasileira, sendo conhecido por vários nomes dentro da cultura popular: abecedária, agrião-bravo, agrião-do-brasil, agrião-do-norte, agrião-do-pará, botão-de-ouro, erva-maluca, jabuaçú, jaburama, jambu-açú, jamaburana, mastruço, nhambu. Dentro do mundo científico são conhecidas diversas espécies que recebem a denominação de jambú, as principais são: Spilanthes acmella e Blainvillea acmella. Dentro da medicina popular costuma ser utilizada para diversos fins, como: antifúngico, anti-séptico, antibacteriano, anestésico, antigripal. É comum entre alguns povos da Amazônia a mastigação das folhas e flores do jambú para aliviar dores nos dentes.

É interessante notar que esse conhecimento, acumulado principalmente pelas populações tradicionais como ribeirinhos, grupos indígenas e quilombolas, vem sendo comprovado por diversos estudos científicos. Alguns desses estudos indicam a presença de alcaloides com propriedades inseticidas, podendo ser utilizados no combate do Aedes aegypti. Um dos principais compostos químicos presentes no jambú é o espilantol. Infelizmente para nós, brasileiros, essa substância (espilantol) já foi patenteada por Norte Americanos e Europeus. Com isso, se quisermos produzir e comercializar remédios e cosméticos a base do nosso jambú teremos que pedir permissão e pagar a esses países. Por exemplo, já existem laboratórios estrangeiros trabalhando na produção de cosméticos anti-rugas a base de espilantol. Esse produto seria aplicado na musculatura subcutânea do rosto, inibindo as contrações musculares de forma muito semelhante ao botox. Porém teria a vantagem de apresentar um grau de toxicidade menor. É realmente uma situação lastimável, principalmente se lembrarmos que o conhecimento para se chegar a esse cosmético provavelmente veio de nossas comunidades tradicionais.
Dentro da culinária da Amazônia e do Pará essa folha é muito apreciada, servindo como base para diversos pratos, como o pato no tucupi e o tacacá. Ambos são herança de nossos povos indígenas. O tucupi é um caldo retirado da raiz de mandioca brava, e que leva horas para ficar pronto, tempo necessário para que perca todo o ácido cianídrico, extremamente tóxico. Já o tacacá é um prato composto com o tucupi bem quente e misturado com farinha de tapioca, camarão e folhas de jambú. Quando se come essa iguaria é normal que a língua fique dormente e os lábios comecem a tremer, fato que justifica o outro nome dessa folha “treme treme”.

Outro fato interessante em relação a esse ewé é a sua utilização em pomadas para aumentar a libido feminina, servindo assim como estimulante sexual para mulheres. Essa ação se daria principalmente através do aumento da contração (peristaltismo) da região genital feminina. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Ceará constatou que a pomada de jambú utilizada em um grupo de homens e mulheres conseguiu aumentar significativamente o desejo sexual e a excitação feminina, assim como o desejo e a satisfação sexual masculina durante a atividade sexual. Mais um fato que comprova que nossos mais velhos sabiam muito bem o porquê da sua utilização.

Vocês se recordam do início do texto? Exú/ Oxum/Oxalá (Procriação/Fertilização/Criação).

Embora muitos considerem essa folha como eró (que apazigua) o awùrépépé também pode ser considerada uma folha gún (que acorda, desperta). Folha poderosa, que cantamos na Sassayin:

Ti éwerépepe

Omi pére pe

Éwerépepe

Okò ni pere pe

Éwerépepe

Omi pére pe

Éwerépepe

Ewerepepe

Água na dosagem certa

Eurepepe

Você não tem na dose certa

Eurepepe

Água na dose certa

Você não tem na dose certa

Ou ainda:

Awùrépépé pèlépèlé beó

Awùrépépé

Aurepepe sensatamente nos abençoe

E também:

Òsányìn Aláwo wa

Sawùrépépé orisá ewé

Òsányìn, Guardião de nosso culto

Suplicamos sua benção, orixá das folhas

oloje iku ike obarainan

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