Itan sobre Iroko

“No início da humanidade, os orixás tomaram a decisão de plantar uma entidade na Terra. Dessa forma, seria mais fácil para que eles descessem até o planeta em questão e ajudassem a povoá-lo, oferecendo não somente trabalho e comida, mas toda uma vida. A divindade que foi utilizada nessa tarefa se chamava Iroko. Certo dia, uma briga muito intensa ocorreu perto de Iroko. Embora os responsáveis por ela fossem dois humanos, eles logo envolveram os orixás em sua discussão, que tomou proporções muito grandes em pouco tempo. Cansado e irritado por presenciar tal questão, Exú soprou um pó que logo se transformou em um raio e atingiu os homens, matando-os. Esse acontecimento assustou toda a população que morava no local, fazendo com que eles acreditassem que aquilo tivesse sido fruto de magia negativa. Revoltados com a conclusão estabelecida pelos seres humanos, os orixás decidiram acabar com toda a vida na Terra. Diante esse acontecimento, Oxalá pediu a intervenção de Olorum, que impediu a morte da comunidade. Nesse momento, a entidade também soprou um pó sobre Iroko. No mesmo minuto, ela criou raízes fortes e longas na Terra e passou a crescer. Cresceu tanto que em poucos minutos quase atingiu o céu. Isso só não aconteceu porque Olorum logo formou várias nuvens que impediram a visão do orixá e, assim, finalizou o seu desenvolvimento. Triste por causa da morte de tantas de suas criações, Oxalá foi presenteado com um galho de Iroko. Com ele, passou a controlar o destino de todas as pessoas, de maneira a não permitir que algo do tipo ocorresse novamente.” (Fonte desconhecida)

Itan sobre Ewá

“Ewá, assim, como Oxumarê, é filha da Orixá Nanã. Ewá é o horizonte, o encontro do céu com a terra. É o encontro do céu com o mar. Ewá era bela e iluminada, mas era solitária e muito calada. Nanã, então, preocupada com sua filha, pediu a Orunmilá que pusesse um amor em seu caminho, que arranjasse um casamento para Ewá. Mas Ewá gostava de sua solidão e queria, na verdade, viver só; dedicando-se unicamente à sua nobre tarefa de trazer a noite ao horizonte, e de mandar o sol se pôr com sua magia. Nanã, porém, insistia em casar a filha. Então, Ewá pediu ajuda a seu irmão Oxumarê. Dono do arco-íris, Oxumarê escondeu Ewá no lugar onde termina o arco de seu corpo. Escondeu Ewá por trás do horizonte e Nanã nunca mais pôde alcançá-la para impor-lhe esse casamento indesejado. Assim, os dois irmãos passaram a viver juntos; lá onde o céu encontra a Terra, de onde ela traz a noite com seu adô.

Pèlé ‘nbo Ewá a níre o
Òrìsà yin a ‘nbo Ewá
Ewá a níre o

Delicadamente cultuamos Ewá
por estarmos felizes
Orixá estamos cultuando-vos Ewá
Ewá estamos felizes.”

(Reginaldo Prandi, “Mitologia dos Orixás”).

Extraído de Simone Santos.

Itan sobre Oxóssi

Oxossi, garoto ainda, mas já demonstrando paixão pela caça e consequentemente pela mata, saía todas as madrugadas e voltava sempre ao anoitecer, sempre, trazendo uma novidade. Ele tinha poucos amigos, pois era desconfiado. Falava pouco, mas quando escapava uma conversa, falava muito de um amigo, Ossain. A mãe não gostava muito das proezas do amigo. Este fazia as pessoas se perderem na floresta, assustava a quem passava distraído, sem pedir licença – “agô”.

Certo dia, a mãe o chamou e disse: – Tive um sonho desagradável com você, por isso, hoje não saia de casa. Ele insistiu e ela disse: – Então não vá para longe. Como Oxóssi era destemido, achou que era controle ou repressão. Sabia também que não era de briga ou agressão. Saiu. Adiante, encontrou com o amigo Ossain, que pulou em sua frente o assustando. Quando reconheceu o amigo, abraçaram-se e foram andando. Ele contou a conversa da mãe, ao que o outro respondeu: – Toda mãe é boba. Nem de briga você gosta. Você não é como Ogun. Andaram muito, tiveram sede. Odé, nas pressas, não pegou o embornal da água e se lamentou. O outro disse: – Tem nada não, tenho aqui uma coisa melhor que água. No primeiro gole, Odé achou forte e disse que não queria. O outro falou: – Você parece uma mocinha. Ao que ele respondeu – Sei que sou homem. E bebeu.

A sede aumentou, Odé bebeu mais e mais, ficou embriagado, sentou e dormiu. O outro gozador jogou a bebida pela cabeça do companheiro. A tal bebida era meladinha – aguardente e mel de abelha – e colocou um punhado de penas da cabeça aos pés, pelo rosto, braços. Pôs no corpo todo. Estando embriagado, Odé não sentiu. Ao acordar, horas depois, meio zonzo, achando-se estranho, pensou que era apenas efeito da bebida, foi para casa já bem tarde, depois da hora de costume. A mãe ao vê-lo fantasiado e trôpego, o expulsou de casa. Ele voltou para a mata desolado, não encontrou mais Ossain que tinha se tornado invisível, depois da peça que pregou. Odé tonto, triste, com fome e sede, todo cheio de penas, não teve condições de seguir em frente.

Pela madrugada chegou Ogun, encontra Odé nesse estado deplorável, toma conhecimento do ocorrido absurdo, manda que vá tomar banho no rio, prepara uma cabana de folhas e o põe dentro e fica de guarda até passar o efeito da embriaguez, até o amanhecer. Deste dia em diante, Oxóssi tomou horror ao mel de abelhas, não quer nem ouvir falar no nome.

(Oxossi: o caçador de alegrias, 2011, p. 29-31).

Itan: Iemanjá, mãe das cabeças

“Olodumare fez o mundo e repartiu entre os orixás vários poderes, dando um reino a cada um para cuidar. A Exú deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Ogum o poder de forjar os utensílios para agricultura e o domínio de todos os caminhos. A Oxóssi o poder sobre a caça e a fartura. A Obaluaê o poder de controlar as doenças de pele. Oxumarê seria o arco-íris, embelezaria a terra e comandaria a chuva, trazendo sorte aos agricultores. Xangô recebeu o poder da justiça e sobre os trovões. Iansã reinaria sobre os mortos e teria poder sobre os raios. Ewá controlaria a subida dos mortos para o Orun, bem como reinaria sobre os cemitérios. Oxum a divindade da beleza, da fertilidade das mulheres e de todas as riquezas materiais da terra, bem como teria o poder de reinar sobre os sentimentos de amor e ódio. Nanã recebeu a dádiva, por sua idade avançada, de ser a pura sabedoria dos mais velhos, além de ser o final de todos os mortais; nas profundezas de sua terra, os corpos dos mortos seriam recebidos. Do seu reino sairia a lama da qual Oxalá modelaria os mortais, pois Oduduwa já havia criado o mundo. Todo o processo de criação terminou com o poder de Oxaguian que inventou a cultura material. Para Iemanjá, Olodumare destinou os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e de todos os afazeres domésticos. Ela trabalhava e reclamava de sua condição de menos favorecida, afinal, todos os outros deuses recebiam oferendas e homenagens e ela, vivia como escrava. Durante muito tempo Iemanjá reclamou dessa condição e tanto falou, nos ouvidos de Oxalá, que este enlouqueceu. A cabeça de Oxalá não suportou os reclamos de Iemanjá. Ele ficou enfermo, e Iemanjá deu-se conta do mal que fizera ao marido e, em poucos dias o curou. Oxalá agradecido foi a Olodumare pedir para que deixasse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o borí e demais ritos à cabeça.” (Autor desconhecido)

Oxum – Ancestralidade Feminina

Òsún é a proprietária de todos os rios e de todas as águas doces do mundo, incluindo a água do corpo e da corrente sanguínea. Em geografia sagrada, a energia Òsún é encarnada em seu rio sagrado que leva seu nome. O rio Òsún que nasce no Estado de Ekiti, no leste da Nigéria e do fluxo para o oeste através de sua casa, Osogbo, onde a adoração é centradaem Òsún. Esta é a casa de sua mais alta sacerdotisa, a Ìyá Òsún (Mãe Òsún).
Òsún – a personificação da Ancestralidade feminina. Em todo o mundo, quando nos deparamos com a água, encontramos a personificação do feminino, da purificação e da fertilidade. É a água que sustenta nossas vidas frágeis no ventre de nossas mães antes de chegarmos a cada encarnação. É água é o agente pelo qual nós purificamos o corpo e a alma. É a água que nos limpa de dentro para fora. Em muitas culturas, a santidade da água é captada no arquétipo de uma divindade feminina, o que também é o caso da cultura iorubá da África Ocidental. A importância primordial da água é ser reconhecida e venerada por meio da adoração dos ribeirinhos ao Òrìsá Òsún (divindade).
… É na estação das chuvas, quando o rio Òsún está cheio de águas, a sua cura e a fecundidade da terra está a sua altura, é quando é feito o festival anual para honrá-la é celebrada. É a sua sacerdotisa, a Ìyá Òsún e sua contra parte terrena / parceiro, o Atoaja, que tomam o centro do palco para se certificar de que ela é propiciada de forma correta, de modo que a cidade inteira, na verdade, todo o nigeriano e adorador mundo afora possa experimentar um ano próspero. Além de ser o Òrìsá da fertilidade corporal, Òsún é uma divindade da fertilidade monetária. Òsún é associada à riqueza e pode provavelmente transmitir a riqueza como ela faz com as crianças. Novamente, podemos olhar para a sua poesia de louvor e compreender sua associação com a riqueza. Em seus poemas vemos muitos elogios, encontramos a altura da beleza, a luz delgada de sua pele que é adornada com o bronze, metal precioso, e carrega um pente de contas. É no rio Òsún que encontramos os meios de troca monetária, o búzio, que é usado pelos yorùbá. Tão forte é sua associação com a riqueza, que na diáspora, ela é freqüentemente invocada a trazer estabilidade financeira e sorte. Freqüentemente, o devoto em busca de riqueza irá encontrar um rio e as ofertas de um dos alimentos especiais Òsún, o mel, juntamente com cinco moedas de cobre. Em Osogbo, não seria incomum para uma pessoa que precisa de dinheiro trazer seus presentes ao bosque sagrado e oferecê-los diretamente ao rio para pedir favores. Enquanto o búzio é um meio de troca, ele também pode ser usado para adivinhação. Òsún é também um adivinho através de sua associação com búzios e sua associação com a òrìsá da Adivinhação Òrúnmìlá (vis-à-vis o casamento). Nos deparamos com mais uma faceta deste Òrìsá muito importante, nos deparamos com uma mulher de conhecimento. Òsún é dito ser o Òrìsá que aprendeu o sistema de adivinhação com dezesseis búzios. De fato, em algumas das mitologias, é Òsún que executa adivinhação na casa de Òrúnmìlá quando ele está longe. Embora para nós Òsún seja o máximo em feminilidade, ela como todos os òrìsá é um poder divino que incorpora a feminilidade. Foi Òsún, o único Òrisá do sexo feminino que desceu a Terra dentre os 16 Òrìsás para deixar o mundo pronto para a humanidade (Autor desconhecido).

Flora Omidewá

A preservação do patrimônio imaterial, sobretudo acerca do conhecimento sobre ervas e suas propriedades litúrgicas e medicinais, sempre foram um ideal da Iyalorixá Lúcia Omidewá. Pensando nisso a Iyalorixá que está a frente do Ilê Axé Opô Omidewá e preside o INDESCO – Instituto de Desenvolvimento Social e Cultural Omidewá, fundou o projeto Flora Omidewá, que pretende atuar em três vertentes: Preservação Ambiental, Sustentabilidade e Propagação do Patrimônio Imaterial constituído pelo conhecimento de ervas e seus fundamentos. A área verde do Ilê Axé Opô Omidewá, que já era ocupada por ervas para os atos litúrgicos, agora preenche-se ainda mais de sustentabilidade, são empregados o reaproveitamento de pneus e materiais recicláveis como garrafas pet, para que os canteiros se expandam e a comunidade utilize-os para expansão de seus conhecimentos, preservação ambiental e geração de renda para a manutenção do Instituto, responsável pelo Ilê e por seus espaços culturais, como o Ponto de Cultura Odé Kayodê. Diante das condições impostas pela pandemia do novo corona vírus, o projeto Flora Omidewá, tem avançado significativamente. Na última quinta-feira (06 de agosto de 2020) parte da comunidade do Ilê Axé Opô Omidewá que segue em isolamento social junto a Iyalorixá, deram seguimento as ações do projeto, desta vez além do planejamento, foi preciso pôr as mãos na massa, foram criados mais 15m² de canteiros e produzidas algumas centenas de novas mudas, que serão destinadas aos atos litúrgicos do próprio Ilê e também a comercialização que é um dos braços sustentáveis do projeto, que busca atender as Comunidades de Terreiro no Estado da Paraíba, mas que pretende também expandir-se nacionalmente, perpetuando o conhecimento sobre as ervas, e disponibilizando exemplares para aquisição deste item indispensável ao candomblé. Todas as atividades realizadas durante a pandemia seguiram as diretrizes da OMS e demais órgãos estatais de saúde. O projeto Flora Omidewá conterá também ações formativas como Oficinas de banhos e produção de sabonetes vegetais, essenciais a liturgia do candomblé, Workshops acerca das Ervas e a Liturgia, Seminários acerca da Preservação Ambiental e Sustentabilidade.

A importância de Exú

EXÚ
O princípio
O intermediário
O início o meio e o fim
A comunicação, a evolução de cada indivíduo

É muito comum as pessoas temerem seu Orixá por estar com obrigação atrasada, alguns dizem que seu “Santo” vai te castigar, vai acontecer isso ou aquilo! Mas o fato é: quando deixamos de cumprir nossas obrigações diante de nosso orixá ele se entristece e acaba se afastando da gente, abrindo campo para doenças, tristezas, mazelas, em geral acontece. Justamente pelo fato de não estarmos em dia. Hoje a humanidade se esquece que culto a orixá é amor ao que se cultua, é evolução, diálogo e compreensão (comunicação), respeito e igualdade, não dá para desejar aos outros o que não se quer para si mesmos.

A maldade é uma via de mão dupla dois pesos e duas medidas, nunca vi ninguém desfrutar da boa vida derrubando os outros o dinheiro fica contaminado a vida adoece, o brilho se ofusca, se não pega quem faz pega um dos seus. Exú é o mensageiro e vai muito além de roupas, pingas e giras madrugada a fora. Ele vê tudo, sabe de tudo, a intenção que cada um tem. Exú é o primeiro a chegar e o último a ir embora, sabe quem dentro está sem precisar entrar. Ele segura nossos portões, defende nosso povo das mazelas, talvez o povo hoje tenha deixado de ler, de estudar de evoluir, de buscar caminhos, os mais velhos por já se acharem sábios o suficiente, os mais novos por darem importância ao que não se tem. Mas o fato é que Exú tem suma importância a cada ato, a cada ação, é o divisor de águas. Candomblé onde se cultua orixá não faz nem prega a maldade ao próximo. Você não precisa estar na lista dos mega star, mas dar caminho aos poucos que juntos estão. Muito menos seguir exemplo de quem não é exemplo de boa conduta, não importa quantas vezes você ganhou dinheiro, mas sim quantas vezes com o dinheiro lembrou-se de Exú, de tudo que te livrou de passar.

São três meses de pandemia, horas, dias e semanas sem culto a orixá, mas a todo momento eles nos protegem. Hoje falta muito o saber. Saber dar continuidade no que começamos, sem buscar tanta resposta no vizinho, mas encontrar caminhos em si mesmos. Se tudo fosse “macumba”, Bahia ganhava a copa do mundo, Babalorixá fazia linha de frente contra o covid, seríamos imortal. Fé, força de vontade, entendimento, sacrifício, dedicação e lealdade, dizem tudo sobre um ser humano. Você pode tomar axé até com Pierre Verger, fazer santo na casa mais tradicional, se não tiver respeito por si mesmo, pelo seu tempo vivido dentro do culto a orixá, se não souber valorizar seu conhecimento tomará 1, 3, 7, 21 anos sem saber que para todo mal existe um bem, para toda perca um ganho, e para todo sacrifício uma vitória.

Nada que se vive é em vão
Tudo nos serve de aprendizado
De compreensão, algumas coisas irão durar meses outras uma vida toda.

Exú em mim, nesta e em outra vida.
Laroye Exú Mojubá

(Autor desconhecido)

Imagem: @vieirapx

Promovendo a Saúde

As recomendações desta postagem são devido a pandemia que estamos presenciando atualmente a nível mundial – Coronavírus (COVID-19), porém, nos servem como hábitos diários para prevenção de outras doenças. Pense nisso. Importante salientar que toda recomendação é uma ação para promover a saúde. Para prevenir doenças é necessário adquirir hábitos adequados e colocar em prática diariamente. Sejamos responsáveis com nossa saúde e com o coletivo. Não espere uma epidemia ou pandemia para agir.
“A transmissão de microrganismos pode acontecer de quatro formas, tanto pelo contato direto, contato indireto, as gotículas das secreções respiratórias ao espirrar ou tossir e mesmo pelo ar. E como nossas mãos estão sempre em contato com o meio ambiente constantemente, elas tornam-se mais vulneráveis à transmissão desses microrganismos”, explica o diretor substituto do Departamento de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Ricardo Gadelha (2018).

Candomblé

No começo dos tempos, Olodumare criou os homens […]
Orunmilá, também chamado Obá Jeunjeum,
ou “Rei-que-Come-Alimento”, na língua dos orixás,
ofereceu-se para levar os homens ao mundo e cuidar deles lá,
com o que Olodumare concordou plenamente.
Previdente, Orunmilá consultou o babalaô,
que o mandou oferecer sacrifícios antes de partir.
Ele deveria preparar sementes de legumes e tubérculos.
O ebó foi feito.
Do Orun, Orunmilá despejou essas ofertas na Terra.
Caindo no solo, as sementes germinaram, os tubérculos brotaram.
As plantas cresceram, dando folhas, frutos e sementes,
e foi com essa abundância que Orunmilá alimentou os homens.
Os serem humanos reproduziram-se e se espalharam pela Terra toda.

(Reginaldo Prandi, Mitologia dos Orixás)

Conta a mitologia iorubana que o universo foi criado por Olodumare, mas, terminada a criação, ele se afastou e deixou que os orixás dessem forma ao mundo e o governassem. Por conta disso, embora os devotos do candomblé reconheçam a existência de um deus supremo da criação, não é a ele que prestam homenagem em seus cultos de grande complexidade, sutileza teológica e beleza, mas justamente a essas outras divindades mais próximas, participantes ativos do dia-a-dia das atividades mundanas.

Diversidade regional e étnica

O candomblé não é um único culto religioso, mas antes uma série de cultos estreitamente aparentados, à semelhança de outras religiões que possuem diversas denominações, com algumas diferenças nos preceitos teológicos e no ritual. Os vários templos e vertentes do candomblé são normalmente agrupados em “nações”, sendo a mais conhecida e disseminada nos meios de comunicação a chamada nação queto. Juntamente com outras nações como efã, ijexá, nagô e mina-nagô, ela pertence ao tronco conhecido como iorubá, com origens africanas localizadas em partes da Nigéria e do Benim. Existem ainda candomblés de nações angola e jeje, entre outras menos conhecidas. O nome candomblé está historicamente associado aos cultos da Bahia, mas religiões semelhantes recebem outras denominações regionais, como xangô em Pernambuco, tambor de mina no Maranhão e batuque no Rio Grande do Sul. O termo candomblé, contudo, tem se disseminado para outras regiões do Brasil e para outros países à medida que a religião ganha mais adeptos. Até por conta dessas variações, algumas pessoas preferem simplesmente denominar esse conjunto de cultos com o nome de religião dos orixás, deixando de lado as diferenças entre eles.

Divindades

Sabe-se que, na Nigéria e no Benim, mais de quatrocentas divindades eram cultuadas no total. No Brasil, contudo, a maior parte dos templos de candomblé reconhece em torno de 20 orixás diferentes, cada qual associado a um aspecto do mundo natural ou humano. Por exemplo, no rito queto, enquanto Ogum é o orixá da metalurgia, da guerra e da agricultura, Oxum é uma divindade feminina ligada à água doce, à beleza e à vaidade. Nenhum orixá é completamente “bom” ou “mau”. Como os homens, com os quais se assemelham, eles são capazes do melhor e do pior, têm defeitos e qualidades e exibem características que podem ser produtivas em alguns contextos e destrutivas em outros. Cada orixá pode se subdividir em algumas “qualidades” ou “manifestações” particulares, cada qual associada a uma passagem ou episódio de sua mitologia: assim, enquanto Oxaguiã é o Oxalá jovem e está associado à cultura material, Oxalufã é o Oxalá velho e se associa à criação do homem. Em muitos templos, cada orixá tem um correspondente entre os santos católicos: assim, é comum que Iansã, orixá que comanda as tempestades, seja associada a Santa Bárbara. Enquanto na África cada templo é dedicado a apenas uma divindade, os templos ou terreiros do candomblé, ainda que tenham um orixá patrono, dedicam-se ao conjunto total das divindades.

Os nomes das divindades, bem como sua importância relativa na mitologia, podem variar de acordo com as nações. Nos candomblés angola, por exemplo, elas são chamadas inquices, enquanto o candomblé jeje as denomina voduns. Utilizamos aqui a terminologia iorubana porque é a mais conhecida e disseminada. Outras divindades também são cultuadas nos terreiros de algumas nações. Assim, alguns templos angola incluem entre suas entidades, além dos inquices, também os caboclos, ou entidades às quais se atribui origem indígena. No tambor de mina, além dos voduns, os fiéis também cultuam entidades femininas infantis conhecidas como tobossas.

Fiéis e iniciados

Os participantes de cada terreiro se dividem em uma hierarquia organizada de acordo com o grau de proximidade do fiel com as divindades. Segundo o candomblé, toda pessoa tem seu espírito ligado a um orixá específico – ou a um conjunto de orixás, em alguns casos. Atribui-se ao indivíduo características de personalidade condizentes com seu orixá patrono. Essa ligação pode ser estreitada por meio de uma complexa série de rituais de iniciação, os mais simples dos quais são a lavagem do colar de contas e o bori, cerimônia destinada a fortalecer o espírito do fiel e prepará-lo para o contato direto com o orixá. Esses estágios iniciais podem ou não se desdobrar na iniciação completa, por meio da qual o fiel, então chamado iaô ou filho-de-santo, torna-se um veículo de seu orixá na terra. Durante as cerimônias e festas públicas do candomblé, os filhos-de-santo são possuídos pelos seus orixás: neste importante momento do transe divino, o iniciado entra em uma espécie de estado de inconsciência enquanto o orixá “baixa” e toma o controle de seu corpo para dançar e encenar cenas míticas. Um filho-de-santo que tenha se iniciado há sete anos pode ganhar o título de ebômi e então ocupar diversos cargos especializados no terreiro, culminando nos títulos de babalorixá (“pai-de-santo”) ou ialorixá (“mãe-de-santo”), autoridades espirituais máximas de cada templo. Em cada um desses estágios, o fiel fortalece sua força espiritual – o axé – e seus laços com o orixá, entrando em contato com saberes rituais e mitológicos cada vez mais restritos. Contudo, também se sujeita a restrições e tabus progressivamente maiores.

Além dos iniciados propriamente ditos, todo terreiro possui um número de fiéis que não completaram sua iniciação (alguns dos quais jamais chegam a completá-la) e que não são possuídos pelos orixás. Trata-se dos ogãs e das equedes, que executam tarefas fundamentais do rito, como tocar os tambores ou paramentar e auxiliar os filhos-de-santo enquanto estes se encontram no transe divino. Por fim, nem todas as pessoas que frequentam um terrreiro ou recorrem à ajuda dos orixás participam ativamente do culto. Muitos comparecem apenas para presenciar a beleza das cerimônias, enquanto outros realizam consultas particulares com os babalorixás e ialorixás, nas quais estes normalmente consultam a vontade dos orixás por meio do jogo de búzios e orientam os clientes a respeito de como propiciar os deuses para obterem a solução para seus problemas.

Os toques e festas

A parte mais pública e conhecida do candomblé são os toques, como são chamadas as cerimônias e festas públicas da religião. Cada terreiro possui um calendário litúrgico com diversas festas em homenagem aos diferentes orixás. Destacam-se as cerimônias que iniciam o ano-novo do calendário do candomblé, entre agosto e setembro, como as do “Inhame Novo” ou as “Águas de Oxalá”, bem como o ciclo de festas que se estende entre setembro e dezembro, homenageando várias divindades na sequência. Além disso, os orixás podem ser cultuados em várias outras circunstâncias.

A estrutura básica do toque se repete: ele se inicia pela manhã com o sacrifício ritual dos animais cujo sangue – veículo máximo do axé ou da força espiritual – é ofertado aos orixás, enquanto a carne é preparada para ser consumida pelos fiéis durante a festa. A festa se inicia com uma oferenda a Exu, divindade que abre os caminhos, e depois seguem-se os cantos e danças com os quais os orixás são homenageados em uma sequência conhecida como xirê. É neste momento de celebração que, ao som dos atabaques e dos cantos dedicados a cada divindade, os orixás descem à terra e dançam através dos corpos de seus filhos. É comum que uma primeira possessão seja seguida de um recolhimento do filho-de-santo, que depois retorna paramentado com as roupas e acessórios de seu orixá para a dança dos deuses. Os cultos do candomblé são conhecidos por sua rica iconografia, que fascina e encanta aqueles que assistem às cerimônias.

Uma “metafísica sutil”

Muitas vezes se dá demasiada atenção às festas do candomblé, que são seu aspecto mais público e visível, deixando de considerar que a religião dos candomblés também corresponde a toda uma visão de mundo. O candomblé propõe uma relação bastante individualizada entre o fiel e o orixá que é seu patrono. Com isso, sua diversificada mitologia fornece um instrumento a partir do qual organizar e compreender melhor a diversidade dos homens e de suas ações no mundo e orientar o comportamento das pessoas. Embora reconheça divisões e às vezes até conflitos entre os orixás e seus filhos, também afirma que o universo só se sustenta a partir de uma trama de comunicações, interações e complementaridades entre as partes. Cada fiel deve render homenagem a seu orixá, mas é toda a comunidade que se beneficia das bênçãos coletivas do conjunto dos orixás. O que seria de uma comunidade que preza pela guerra de Ogum, mas é incapaz de promover o amor de Iemanjá? Assim, o candomblé ensina a seus fiéis que diferentes tipos de ação ou personalidade, diferentes fenômenos da vida cotidiana, antes de serem intrinsecamente bons ou ruins, são necessários à continuidade saudável vida desde que se exerçam com harmonia. Além disso, o candomblé está longe de oferecer apenas força espiritual para os filhos-de-santo, pois esta vem sempre acompanhada de restrições e obrigações que correspondem também às suas responsabilidades perante os deuses e as comunidades das quais são apenas uma parte.

Tendências demográficas

Pode-se dizer que, longe de ser um resquício do passado, o candomblé é hoje uma religião moderna e em plena expansão em diversas regiões do país e também do exterior, haja vista seu crescimento em países como a Argentina ou os EUA. Historicamente, a religião dos orixás, em suas várias denominações, sempre esteve mais atrelada a centros urbanos como Salvador, Recife, São Luís ou Porto Alegre, tendo se consolidado no século XIX. A partir dos terreiros baianos, ela se disseminou para o Rio de Janeiro no início do século XX e depois para São Paulo, onde teve uma grande expansão nos anos 1960. Pode-se dizer que o candomblé, desde suas origens, sempre teve um potencial universalizador, pela sua capacidade de unir culturas e divindades africanas de diversas procedências diferentes, e também pelo fato de sempre ter atraído pessoas de diversas origens étnico-raciais para seus ritos. Apesar disso, até os anos 1960, ele podia ser considerado uma religião que abrangia predominantemente as populações negras, histórica e culturalmente vinculadas ao culto dos orixás. Isso mudou muito na segunda metade do século XX, com um movimento crescente de diversificação étnico-racial dos fiéis e com uma tendência do candomblé de atrair cada vez mais as classes médias e escolarizadas. Alguns autores atribuem essa tendência a um desencanto crescente com outras religiões dominantes no Brasil, ao tipo de ligação pessoal e individualizada do fiel com os deuses promovida pelo candomblé e a uma rejeição crescente à cultura moderna secularizada.

Segundo dados do censo de 2000 realizado pelo IBGE, mais de 127 mil brasileiros se declararam adeptos do candomblé. Esse número aumenta bastante se considerarmos todas as pessoas que frequentam os terreiros durante as festas públicas e consultas particulares, uma vez que muitas delas não podem se declarar fiéis por não terem passado pelos ritos de iniciação. Desse número, 23% se declararam negros, 38% pardos e 37% brancos. O candomblé está muito longe, portanto, de ser uma religião negra ou étnica, mostrando-se um culto capaz não apenas de encantar, mas de suprir as necessidades e aspirações espirituais de inúmeros e variados fiéis, que dedicam sua vida à beleza dos festejos e à honra de serem os filhos diletos dos orixás, os veículos do sagrado na terra.

Fontes de pesquisa:

– AMARAL, Rita; SILVA, Vagner Gonçalves da. Foi conta para todo canto: as religiões afro-brasileiras nas letras do repertório musical popular brasileiro. Afro-Ásia, Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais/UFBA, n. 34, p. 189-235, 2006.

– BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil: contribuição a uma Sociologia das interpenetrações de civilizações. São Paulo: Livraria Pioneira Editora/Editora da Universidade de São Paulo, 1971.

– O candomblé da Bahia: rito nagô. Ed. rev. e ampliada. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

– DANTAS, Beatriz Góis. Vovó nagô e papai branco: usos e abusos da África no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

– MATORY, James Lorand. Black Atlantic religion: tradition, transnationalism, and matriarchy in the Afro-Brazilian candomblé. Princeton/Oxford: Princeton University Press, 2005.

– PRANDI, Reginaldo. Herdeiras do axé: sociologia das religiões afro-brasileiras. São Paulo: Hucitec, 1996.

– Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. SILVA, Vagner Gonçalves da. Orixás da metrópole. Petrópolis: Vozes, 1995.

FONTE: http://www.museuafrobrasil.org.br/pesquisa/indice-biografico/manifestacoes-culturais/candomble

Omo Orixá

Para ser omo Orixá, para poder seguir nossas descendências africanas temos 3 princípios primordiais:

1º ser humilde sentando na esteira e apenas ouvir.
2º ter consciência e obediência aos mais velhos.
3º ter lealdade e honrar com o próximo.

A referência de uma criança e de um yao (iniciado para Orixá) é a sabedoria, capacitação e a solidariedade de seus responsáveis. Olodumare grande responsável de todos, criou junto aos seus auxiliares Títulos, esses títulos a base é: APRENDER COM EXEMPLO E ENSINAR DANDO EXEMPLO. Ser religioso é ser exemplo, ser religioso é aprender eternamente, nunca deixando o absolutismo próprio passar na frente, ser religioso é honrar os ancestrais que lutaram no passado para deixar esse legado, a natureza, o plantio e a evolução contínua. Precisamos ouvir mais, seguir princípios, precisamos amar mais, honrar mais, respeitar mais, precisamos aprender mais a lidar com a vida e para isso acontecer, precisamos valorizar nossos mestres.

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