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HUNXWÉDÓXÓ E ASIHUHU – MORTE E RESSUREIÇÃO DA HUNSÒ

HUNXWÉDÓXÓ E ASIHUHU – MORTE E RESSUREIÇÃO DA HUNSÒ

“ressuscitação de uma mulher morta há sete dias”

Um grito de dor após o ritual em homenagem a Sakpata. A moça, que estava clinicamente morta, volta à vida. Marcando o ponto culminante da festa de ressurreição, uma das cerimônias mais importantes entre os fons do Danxòmè.

Um povoado africano, em meio à densa floresta tropical do Daxòmè. As casas circundam um espaço vazio, espécie de praça central. Tudo é ainda silêncio, e ninguém permanece na praça. Mas o dia de hoje não é como os outros. De repente, do interior de uma das casas maiores, uma espécie de convento, ouvem se gritos lancinantes de mulheres. Como que despertados por esses gritos, os atabaques começam a tocar. É preciso esperar. Os demais habitantes que não são iniciados, têm que aguardar o término da cerimônia de adoração a Sakpata, feita no interior do convento, e assistida apenas pelos Sakpatanò. Logo após, no meio da praça, todos assistiremos à demonstração do poder de Sakpata. Sakpata vai ressuscitar uma jovem, clinicamente morta há sete dias.

O relato deste ritual só foi possível por muita dedicação e um pedido do Kòkpon (Rei do Allada) aos Sakpatanò do Danxòmè que devem submissão. Esta festa seria o iniciação da iniciação dos Sakpatasi que no Brasil, seria o acordar do “bolar”.

Num instante, os atabaques param de tocar. Cadeiras e bancos são trazidos para a praça central, e os habitantes reúnem se em círculos. Entre eles encontram se os familiares da jovem “morta”, que trouxeram oferendas a Sakpata, a fim de que este traga sua filha de volta de seu reino.

O lento despertar do reino da morte. Os huntò já saíram do convento, e tomaram lugar entre as cadeiras, com seus instrumentos seguros entre as pernas. Recomeçaram a tocar, mantendo o mesmo ritmo, constituindo um estranho e estimulante fundo musical (daahun)

Agora, são as Sakpatanò que chegam, facilmente reconhecidas pelas inúmeras cicatrizes que ornam sua pele. Com a cabeça raspada, elas se enfeitam com braceletes e colares feitos principalmente de akwè. Além de enfeites, esses objetos têm um importante significado ritualistico. Todas trazem na fronte uma fita ornada com plumas de papagaio: sinal que distingue as sacerdotisas de Sapata. Depois, são os vodunò, azétò, que entram na praça. Em seguida, chega o corpo da jovem morta enrolado num lençol imaculado, carregado por quatro homens. No centro da massa humana reunida, foi deixado um espaço livre sobre o qual ninguém pisa. Neste espaço, o corpo é depositado, e desnudado. A jovem não apresenta nenhuma manifestação de vida. Não respira, não se move. A pele adquiriu uma tonalidade cinza, e apresenta diversas feridas purulentas. Os sacerdotes trazem uma grande cabaça cheia de água, na qual foram mergulhadas diversas plantas (amasin).

O canto das mulheres recomeça, monocórdico. Lava se o corpo da jovem com a água da cabaça (kasin). Ao mesmo tempo, as sacerdotisas libertam se de seus atributos, e começam a massagear o corpo. O lençol é umedecido, e usado por momentos como sudário.

O trabalho de massagem dura cerca de duas horas, onde se repetem os mesmos gestos e cantos. Algumas pessoas jogam moedas sobre o lençol. Ninguém fala. Pouco a pouco o corpo retoma sua cor normal, negra, mas permanece sempre inerte.
A certo ponto, o silêncio se faz mais profundo. As sacerdotisas se afastam. Chega o lider dos feiticeiros (Azétònò), que se ajoelha ao lado da jovem, inclina se sobre seu ouvido, e grita seu nome com todas as forças. “Ele deve chamá-la sete vezes”, diz meu guia e companheiro. E, fora esse grito que se repete, nenhum outro ruído afasta o pesado silêncio. Sete vezes, e nada acontece! Um sobressalto percorre a multidão.

Um oitava vez o nome da jovem é gritado pelo feiticeiro. E, então, ela gemeu! Todos nós somos testemunhas: ela gemeu.

O atabaques e os cantos se desencadeiam: Sakpata aceitou que a jovem se torne mais uma sakpatasi. Imediatamente, a moça tem sua cabeça coberta, e é retirada para o interior do convento. Sua iniciação começou, e ela não deverá ver o mundo exterior.

No povoado, a festa vai continuar durante todo o dia e toda a noite. Todos vão comer, beber, dançar e rir muito, contagiados pela típica alegria africana, um estado de espírito que tudo arrasta à sua passagem.
O ritual para ressuscitar é apenas uma parte ínfima dos complexos processos de iniciação ao culto de Sakpata, QUE DURA PELO MENOS TRÊS ANOS. Período durante o qual os jovens discípulos são completamente isolados do mundo exterior.

A cerimônia da ressurreição é, de fato, primordial. O chamado ao novo “filho” do vodun é feito pela própria entidade (que se apodera de seu corpo provocando profundos transes mediúnicos), ou decidido pelos familiares ou pelos outros sacerdotes. A idade média de iniciação, tanto para moças como para rapazes, VARIA DE OITO A DEZESSEIS ANOS. Os dois sexos, se bem que em habitações diferentes, seguem mais ou menos os mesmos ritos e etapas iniciáticas.

Desde sua entrada, o jovem discípulo entra num estado de morte aparente, onde cessam todas as suas funções vitais. DURANTE SETE DIAS, ELE VAI PERMANECER NO LOCAL SEM RECEBER NENHUMA ALIMENTAÇÃO, BEBIDA, OU CUIDADO. JÁ NESTA PRIMEIRA ETAPA, OCORRE UMA SELEÇÃO NATURAL: ALGUNS, APÓS SETE DIAS, DESPERTAM, E OUTROS, NÃO. ESTES ÚLTIMOS SAKPATA NÃO OS QUER PARA SERVI-LO NESTE MUNDO, E POR ISSO OS GUARDA JUNTO DE SI.

Três anos, e Sakpata tem mais um sacerdote Após serem cuidados, e postos em boas condições físicas, OS JOVENS ESCOLHIDOS IRÃO APRENDER A LINGUAGEM SECRETA DOS INICIADOS (HUNGBÉ), os cantos, danças, as diversas operações mágicas. Serão feitas cicatrizes em seu corpo (hunkan), principalmente na fronte, costas, ventre e braços. A cada corte que produzirá uma cicatriz, será proferida uma prece, e um pouco de pó à base de plantas carbonizadas será depositado no interior da carne (bó).

Cada uma delas destina se a proteger o iniciado contra a feitiçaria, os inimigos, e também a lhes dar poder e direta ligação com o grande orixá.

Os discípulos deverão também aprender as propriedades de cada planta mágica ou medicinal, propriedades que tanto podem ser boas como maléficas. Os remédios, as poções, amuletos, não mais terão segredos para eles. Entre essas operações, uma das mais respeitadas e temidas é a cultura do vírus da varíola.

Eles conhecerão cada deus animista, cada ser da natureza, e as cerimônias a eles relacionadas. Mais tarde, para os rapazes, após passarem outras temporadas em reclusão, será permitido servir também a outros desses deuses.

Ao término da iniciação, rapazes e moças retomarão sua vida normal, mas estarão sempre à disposição do grande feiticeiro para os rituais. Periodicamente, retornarão aos conventos durante algumas semanas.

(Texto baseado em uma matéria do jornalista francês Robert Grainville).

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