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Dendezeiro (IgI Ope)

Que outro vegetal pode ser mais importante para nosso contexto religioso que o dendezeiro?

Creio que podem existir outros tão importantes quantos ele, mas nenhum mais importante do que ele.

Das suas folhas fazem-se as franjas do mariwo, cortinas sagradas que têm por finalidade resguardar e separar o sagrado do profano.

Um canto louvado nos candomblés de ketu mostra o pode do mariwo

Biri-biri bò wón lójú

Ogbéri ko mo Mariwo

(as trevas cobrem seus olhos, O não iniciado não pode conhecer O mistério do mariwo)

 

De seus frutos extrai-se o óleo de palma, conhecido no Brasil como “azeite de dendê, entre os nagôs como “epo pupa” e entre todos os iniciados como “sangue vermelho do reino vegetal e classificado como um elemento Eró”“.

Retirada à polpa de seus frutos, de onde se obtém o azeite, resta uma semente, pequeno caroço no interior do qual se encontra um coquinho do qual se extrai um óleo finíssimo denominado “óleo de palmeira”, conhecido em yorubá pelo nome de “ADI”.

Não bastassem os diferentes produtos que nos é fornecido por esta árvore, devemos nos reportar aos seus significados mais profundos.

O dendezeiro é a árvore sagrada de Ifá e é de seus frutos que se obtêm os negros caroços que, depois de ritualisticamente consagrados, irão representar ORUNMILÁ em seus assentamentos, além de servirem para as consultas ao oráculo de Ifá onde o próprio Orunmilá é contatado por seus sacerdotes, os babalawo. Aos caroços assim consagrados dá-se o nome de “IKIN”.

Somente os “IKIN” que possuam quatro “olhos” ou mais servem para esta finalidade, sendo que aqueles que possuem apenas três olhos não devem ser usados para este fim..

O dendezeiro é classificado cientificamente como “família das “palmáceas”, este vegetal possui ainda duas variações”.

A primeira, “comum”, é a mais utilizada na cultura deste vegetal, por produzir, em maior quantidade, frutos maiores e que atendem melhor ao objetivo da produção de mais óleo.

A variedade “idolátrica” produz frutos menores e, por este motivo não é cultivada como sua irmã “comum”, mas é ela que produz as sementes de quatro ou mais olhos o que não ocorre em relação à espécie comum, que pode ocasional e muito raramente oferecer-nos um caroço de quatro olhos entre milhares de três, e isto é uma exceção dificílima de ocorrer.

Esta diferença sempre foi conhecida pelos africanos que dão ás duas espécies, nomes diferentes.

O Igi Ope como é chamado pelos Nagôs/Ketu além destas propriedades citadas que são utilizadas nos rituais sagrado dos Orisa, quero aqui complementar partes que são de grande importância em nossos rituais religiosos.

IBALÚ são os talos que são retirados das folhas do igi ope quando estão fazendo as franjas do mariwo, o Ibalú é um elemento de ancestralidade que os sacerdotes Asoba usam na confecção dos símbolos sagrados, o Orisa Obaluaiye e do Orisa Nana e dos orisa Osumare e Osayim, ressaltando que estes símbolos tem todo um ritual para serem feitos, e poder transmitir a força de ase, que estes orisas possuem hoje muitos compram em lojas de artigos religiosos, revertidos com produtos que não tem validade religiosa, como SASARA e IBIRI, que por sua vez deveriam ser feitos, nas próprias casas de ase.

EKURO é um elemento retirado das cascas do Iki quando são cozidos para ser extraído o Epo Pupa, Ekuro utilizada no ritual de iniciação do culto do Orisa Aira e o GOSÓ, é outro elemento transmissor de ase que é retirado do tronco do Igi Ope e utilizado no Ajere do Orisa Oya e Orisa Sango. Tronco do Igi Ope e retirado o Emú uma bebida usada no culto do Orisa Ogun, conhecido tradicionalmente como vinho de palma.

Epo pupa é elemento transformador de ase contrariando o que muitas pessoas pensam ser elemento GUN, na verdade é um elemento ERO.

Uma antiga lenda, conta que havia um mercado na cidade de Ire, conhecido por ser um mercado cheio de sofrimento, mas que apesar do sofrimento, o grande Deus da Adivinhação, Orunmilá conseguiu lá a sua prosperidade. Sabendo disso, Òsàlá também almejou a prosperidade, procurando saber com Orunmilá, o que ele deveria fazer para passar pelo sofrimento e conseguir o seu objetivo. Orunmilá recomendou à Òsàlá que fosse ao mercado, mas que tivesse muita paciência, pois assim conseguiria sua prosperidade. Assim Òsàlá o fez. Na primeira ida ao mercado, Òsàlá não encontrou nada, somente um Ìgbín (caramujo consagrado a Òsàlá), cobrando-lhe pedágio. Òsàlá novamente foi ao mercado e não encontrou nada, além do sofrimento e do Ìgbín que novamente lhe cobrou o pedágio. Mesmo a contragosto, Òsàlá recordou-se que deveria ter paciência, caso desejasse a prosperidade. Na terceira vez que foi ao mercado, ele novamente pagou o pedágio ao Ìgbín, contudo, ao invés de sofrimento, ele encontrou uma grande riqueza, o tornando um grande Rei próspero.

 

Ao saber que Òsàlá havia conseguido sua prosperidade no mercado do sofrimento, Ògún também procurou saber com Orunmilá, como também tornar-se próspero. Orunmilá lhe disse que ele deveria ser paciente e, em hipótese alguma, deveria usar o seu Alada (Facão) e seu Porrete (Kumo). Ògún de posse das orientações de Orunmilá, foi até o mercado do sofrimento, chegando lá se deparou com um cachorro no portão, cobrando-lhe pedágio para entrar. Ògún achou inaceitável um cachorro lhe cobrar pedágio e, num impulso imediato, pegou seu Alada, ferindo o cachorro até a morte.

 

Todos gritaram: “Ele matou o Onibode” (o guardião do portão), todos começaram a chorar e, com vergonha, Ògún correu mata adentro, onde havia uma grande plantação de Labelabe (uma planta cortante, chamada em Salvador de Tiririca). As folhas de labelabe cortaram toda a roupa de Ògún. Quando ele saiu da mata, chegando a praça principal da cidade, ele estava completamente nu. As pessoas então gritaram “Ògún Kolaso” (Ogun não se cobre com roupas). Novamente envergonhado, Ògún olhou um Igi Ope, arrancando-lhe o broto e vestindo-se com o Màrìwò. As pessoas, por sua vez, exclamaram: “Màrìwò Asò Ògún-o Màrìwò” (Mariwo é a roupa de Ògún, o Mariwo). Como forma de arrependimento, Ògún desde então, passou a usar o Màrìwò como a sua vestimenta, sendo que as palavras entoadas na ocasião são cantadas até os dias de hoje, nas festas dedicadas à Ògún

Mariô ou Mariwô, chamado de (igi ôpê) pelo povo do santo, é o nome da folha do dendezeiro, nome científico “Elaeis guineensis”, desfiado, utilizado nas portas e janelas dos terreiros de candomblé. O mariô é consagrado a Ogum, assim, é muito comum vê-lo nos assentamentos e nas vestes deste Orixá.

Segundo a mitologia do candomblé, a função do mariô é espantar as energias negativas e espíritos perturbadores, tendo esta função, a Orixá Oyá Igbalé (mais conhecida como Iansã do Balé), a divindade que preside sobre os Eguns, carrega-o também sobre as suas vestes.

Todo integrante do culto aos Egungun é chamado de Mariwô.

 

*Relato feito à base de pesquisa em fontes diversas

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