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A importância do alimento na religião afro-brasileira, fonte de vida e fé

Dividir o alimento com os deuses é prática comum em inúmeras culturas, bem como convidá-los para comer conosco. Em muitas civilizações antigas, os rituais visavam ofertar parte da colheita às suas divindades, de forma litúrgica o alimento tornava-se sagrado. Assim também é no candomblé.
A comida é fundamental, pois é fonte de vida e saúde, ninguém pode viver sem se alimentar. Infelizmente há os que o fazem com precariedade, alguns comem com fartura e desperdício, outros não têm nenhuma opção. Graças aos orixás, essa realidade não é definitiva nas cozinhas e mesas das casas de candomblé, sempre fartas. Certa vez, um irmão de orixá comungava comigo um alimento sagrado e falou: “mãe, a senhora já viu que em nossas casas pode faltar tudo, menos o alimento?”, respondi: “graças aos nossos orixás”. Esta frase me fez voltar ao tempo, quando em minha infância peregrinava em comunidades afro-ameríndias, onde todos sabem que os recursos eram escassos, mas sempre após os cultos sabia que logo chegaria o ajeum (comida sagrada que antes de ser servida aos homens, é ofertada aos nossos deuses). Esse alimento sagrado não supre apenas as necessidades do corpo, mas especialmente as do espírito.
Em nossa religião, tudo começa no mercado, a partir do momento em que adquirimos a matéria prima para o preparo das comidas sagradas. Mercado este que, para nós, também é sagrado, pois o dono do mesmo é Exu, que recebe o título de olóoja (dono do mercado), a quem devemos pedir licença ao adentrarmos à feira. Após as compras, a cozinha é o espaço sagrado de maior destaque e importância, pois é lá onde todo o ritual começa. Nossa religião é iniciática e hierárquica. Existe uma pessoa designada para exercer cada função. No caso da cozinha trata-se da iabassê (senhora respeitável que cozinha), cargo este de grande autoridade do templo e dos deuses, e que jamais pode ser desempenhado por homens. Os atributos da iabassê não incluem apenas o preparo da comida, mas também o zelo com esmero da mesma, observando os preceitos de cada orixá. Estes preceitos são de fundamental importância para a segurança dos membros da comunidade, pois existem alimentos que jamais podem ser ofertados a certos orixás ou pessoas. São para nós chamados de ewós, ou seja, proibições. Oxalá, por exemplo, jamais pode comer azeite de dendê. Existem os ewós individuais e os coletivos, como também os de cada nação. Em Ketu, o caranguejo é a maior proibição. O respeito aos ewós nos possibilita obter bem estar físico e espiritual, e a falta deste nos trás desequilíbrio.
O alimento sagrado é fonte e símbolo de riqueza e vitalidade, bem como um elo fundamental entre o órun (céu) e o aiyê (terra), entre os deuses e os homens. Em todos os terreiros a hora da refeição é momento de confraternização e alegria. Compartilhar o axé, ou o alimento sagrado, é tomar parte da alegria do outro. Contudo, vale ressaltar que a alegria que permeia os rituais não deve ser confundida com a falta de respeito.
Os orixás compartilharam da cozinha do escravo, comeram com eles angus e farinha seca, e jamais os rejeitaram. Conheceram a miséria, a fome e os horrores da escravidão. Sobreviveram e nos deixaram iguarias variadas, resultados de misturas surpreendentes de temperos, raízes, grãos, frutos e azeite. Estas misturas se processaram nos alimentos nativos, e o sabor marcante que chegou aos porões dos navios negreiros, que compõem a famosa comida baiana, expressa a mesma mistura que formou o povo brasileiro, onde se originaram as mais belas e variadas tonalidades que fazem os afro-descendentes desse país.
Nós das comunidades de terreiros sempre nos preocupamos com a segurança e a qualidade dos alimentos. Embasados nisso, devemos exigir maior controle na qualidade e segurança destes, lutando por políticas públicas mais rígidas, fazendo valer nosso direito por uma alimentação saudável.
Quero aqui enaltecer o valor das iabassês dos templos de matriz africana, em especial a Mana d’Ogum, que exerce esta função no Ilê Axé Omidewá, com dedicação e amor aos orixás.
Que Oxossi, o provedor, sob a égide (proteção) de Olorum, mantenha nossas cozinhas fartas de sabores e sabedorias.

Axé!

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