{"id":417,"date":"2012-06-19T13:55:34","date_gmt":"2012-06-19T13:55:34","guid":{"rendered":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/?p=417"},"modified":"2012-06-19T14:05:28","modified_gmt":"2012-06-19T14:05:28","slug":"os-valores-que-passamos-para-nossos-filhos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/arquivos\/417","title":{"rendered":"OS VALORES QUE PASSAMOS PARA NOSSOS FILHOS"},"content":{"rendered":"<div><strong><a href=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/FONTE-AFRO1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-thumbnail wp-image-423\" title=\"FONTE AFRO\" src=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/FONTE-AFRO1-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a>Fabiana Mascarenhas<\/strong><\/div>\n<p>Quando crian\u00e7a, tinha vergonha do meu cabelo. Sonhava em ter o penteado igual ao das amiguinhas de sala, sempre liso e brilhante. A televis\u00e3o, a m\u00eddia, a ind\u00fastria de brinquedos, a pr\u00f3pria sociedade, tudo me levava a achar que era feia por ter cabelo crespo. N\u00e3o \u00e0 toa, fui uma das in\u00fameras crian\u00e7as que teve apelidos por conta da cor da pele. Nascida de um pai negro e uma m\u00e3e branca, no seio familiar, meus\u00a0 pais me faziam entender que era linda do que jeito que nasci. Nunca houve discurso em defesa dos negros, assim como nunca tiveram o costume de arrumar o meu cabelo no estilo \u201cafro\u201d, com o objetivo de reafirmar a minha negritude.<\/p>\n<div>Talvez, por isso, um epis\u00f3dio ocorrido na \u00faltima semana tenha me deixado t\u00e3o sensibilizada. Uma crian\u00e7a negra, com cabelo escovado, entrou com a m\u00e3e em um elevador lotado de um centro comercial de Salvador. A crian\u00e7a \u2013 que imagino ter entre sete e oito anos \u2013 olhou para mim e, depois de muito examinar, perguntou por que o meu cabelo \u201c\u00e9 para cima\u201d. Explico que ele n\u00e3o \u00e9 para cima, que penteio assim porque gosto e acho bonito. Em seguida, ela diz: \u201cEle \u00e9 duro, n\u00e9?\u201d. Neste momento, todos no elevador riem. Respondo que ele \u00e9 crespo, n\u00e3o duro. \u201cN\u00e3o existe cabelo duro ou mole, mas liso, cacheado, crespo. E o seu, voc\u00ea acha que \u00e9 como?\u201d, pergunto.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Ela responde que a m\u00e3e diz que o cabelo dela \u00e9 duro e, por isso, ela alisa. \u201cN\u00e3o gosto. Queria ter o cabelo assim como o seu, mas minha m\u00e3e n\u00e3o gosta. Diz que \u00e9 coisa de preto pobre\u201d, fala, inocentemente. A m\u00e3e, sem olhar em nenhum momento para mim, d\u00e1 um forte belisc\u00e3o na garota e diz: \u201cMenina, como \u00e9 que voc\u00ea diz uma coisa dessas! Cale a boca!\u201d. No mesmo instante, nasce um sil\u00eancio constrangedor no ambiente. No entra e sai das pessoas, a crian\u00e7a, com cara de choro, deixa de olhar para mim e mant\u00e9m o olhar fixo na porta do elevador.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Chegamos, ent\u00e3o, ao 11\u00ba andar. Tenho que descer. Antes, por\u00e9m, falo com a garota: \u201cSua m\u00e3e tem o direito de ter a opini\u00e3o dela e escolher de que maneira ela deve cri\u00e1-la, mas ter o cabelo desse jeito n\u00e3o \u00e9 coisa de preto pobre. N\u00e3o importa se a pessoa \u00e9 preta, branca, pobre ou rica, ela tem o direito de usar e fazer o que ela quiser com o cabelo. Quando voc\u00ea crescer e puder cuidar do pr\u00f3prio cabelo, a\u00ed voc\u00ea deixa assim, do jeito que voc\u00ea quer, t\u00e1 bom?\u201d.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>A garotinha apenas sorri. A m\u00e3e, por sua vez, olha para mim com cara de indigna\u00e7\u00e3o. Puxa a menina para perto dela e diz, em tom alterado: \u201cPode deixar que da minha filha cuido eu. Ela vai ter o cabelo do jeito que eu quiser\u201d. Foi, ent\u00e3o, que respondi: \u201cAt\u00e9 pode ser, mas a ra\u00e7a dela \u00e9 essa, minha senhora. E isso, felizmente, voc\u00ea n\u00e3o pode mudar\u201d. A porta do elevador se fecha.<\/div>\n<div>Volto a lembrar dos\u00a0meus\u00a0pais, que sempre me mostraram que toda e qualquer pessoa deveria ser respeitada do jeito que era, independentemente da cor ou classe social. Podia ter o cabelo tran\u00e7ado, encaracolado, escovado, black power, enfim, cada um adere ao estilo que lhe conv\u00e9m. Mais do que ensinar a filha a valorizar a pr\u00f3pria ra\u00e7a, os valores que me foram passados tinham como base o respeito \u00e0 diversidade. E foi assim que cresci, tendo o entendimento de que, mais do que na apar\u00eancia, a minha negritude estava na consci\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O caso chama aten\u00e7\u00e3o pela total ingenuidade da crian\u00e7a e pelo posicionamento da m\u00e3e, t\u00e3o negra quanto eu. Depois de a porta do elevador se fechar, ficou em mim a tristeza pela garota. Que tipo de valores essa m\u00e3e est\u00e1 passando \u00e0 filha? Me pergunto se, tendo este tipo de cria\u00e7\u00e3o, ela crescer\u00e1 tendo um posicionamento diferente. \u00c9 bem prov\u00e1vel que n\u00e3o, o que dificulta ainda mais o combate ao preconceito, uma vez que ser\u00e3o crian\u00e7as como ela os agentes do futuro. Estar\u00e3o \u00e0 frente das empresas, dos centros religiosos, do governo, reproduzindo o preconceito que perdura h\u00e1 anos, justamente por conta dessa transfer\u00eancia absurda de valores. N\u00e3o podemos esquecer, ningu\u00e9m nasce preconceituoso. Portanto, pais, eu lhes pergunto: que tipo de valores voc\u00eas est\u00e3o passando para seus filhos?<\/div>\n<p>N\u00e3o importa se a pessoa \u00e9 preta, branca, pobre ou rica, ela tem o direito de usar e fazer o que ela quiser com o cabelo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fabiana Mascarenhas \u00e9 jornalista e rep\u00f3rter do Grupo A TARDE<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiana Mascarenhas Quando crian\u00e7a, tinha vergonha do meu cabelo. Sonhava em ter o penteado igual ao das amiguinhas de sala, sempre liso e brilhante. A televis\u00e3o, a m\u00eddia, a ind\u00fastria de brinquedos, a pr\u00f3pria sociedade, tudo me levava a achar que era feia por ter cabelo crespo. 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