{"id":84,"date":"2011-04-12T14:26:16","date_gmt":"2011-04-12T14:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/?p=84"},"modified":"2011-04-14T17:51:28","modified_gmt":"2011-04-14T17:51:28","slug":"a-importancia-do-alimento-na-religiao-afro-brasileira-fonte-de-vida-e-fe","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/arquivos\/84","title":{"rendered":"A import\u00e2ncia do alimento na religi\u00e3o afro-brasileira, fonte de vida e f\u00e9"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/maelucia_foto_felipegesteira_131.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-85\" title=\"maelucia_foto_felipegesteira_13\" src=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/maelucia_foto_felipegesteira_131.jpg\" alt=\"\" width=\"151\" height=\"230\" \/><\/a>Dividir o alimento com os deuses \u00e9 pr\u00e1tica comum em in\u00fameras culturas, bem como convid\u00e1-los para comer conosco. Em muitas civiliza\u00e7\u00f5es antigas, os rituais visavam ofertar parte da colheita \u00e0s suas divindades, de forma lit\u00fargica o alimento tornava-se sagrado. Assim tamb\u00e9m \u00e9 no candombl\u00e9.<br \/>\nA comida \u00e9 fundamental, pois \u00e9 fonte de vida e sa\u00fade, ningu\u00e9m pode viver sem se alimentar. Infelizmente h\u00e1 os que o fazem com precariedade, alguns comem com fartura e desperd\u00edcio, outros n\u00e3o t\u00eam nenhuma op\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as aos orix\u00e1s, essa realidade n\u00e3o \u00e9 definitiva nas cozinhas e mesas das casas de candombl\u00e9, sempre fartas. Certa vez, um irm\u00e3o de orix\u00e1 comungava comigo um alimento sagrado e falou: &#8220;m\u00e3e, a senhora j\u00e1 viu que em nossas casas pode faltar tudo, menos o alimento?&#8221;, respondi: &#8220;gra\u00e7as aos nossos orix\u00e1s&#8221;. Esta frase me fez voltar ao tempo, quando em minha inf\u00e2ncia peregrinava em comunidades afro-amer\u00edndias, onde todos sabem que os recursos eram escassos, mas sempre ap\u00f3s os cultos sabia que logo chegaria o <em>ajeum <\/em>(comida sagrada que antes de ser servida aos homens, \u00e9 ofertada aos nossos deuses). Esse alimento sagrado n\u00e3o supre apenas as necessidades do corpo, mas especialmente as do esp\u00edrito.<br \/>\nEm nossa religi\u00e3o, tudo come\u00e7a no mercado, a partir do momento em que adquirimos a mat\u00e9ria prima para o preparo das comidas sagradas. Mercado este que, para n\u00f3s, tamb\u00e9m \u00e9 sagrado, pois o dono do mesmo \u00e9 Exu, que recebe o t\u00edtulo de <em>ol\u00f3oja<\/em> (dono do mercado), a quem devemos pedir licen\u00e7a ao adentrarmos \u00e0 feira. Ap\u00f3s as compras, a cozinha \u00e9 o espa\u00e7o sagrado de maior destaque e import\u00e2ncia, pois \u00e9 l\u00e1 onde todo o ritual come\u00e7a. Nossa religi\u00e3o \u00e9 inici\u00e1tica e hier\u00e1rquica. Existe uma pessoa designada para exercer cada fun\u00e7\u00e3o. No caso da cozinha trata-se da <em>iabass\u00ea<\/em> (senhora respeit\u00e1vel que cozinha), cargo este de grande autoridade do templo e dos deuses, e que jamais pode ser desempenhado por homens. Os atributos da iabass\u00ea n\u00e3o incluem apenas o preparo da comida, mas tamb\u00e9m o zelo com esmero da mesma, observando os preceitos de cada orix\u00e1. Estes preceitos s\u00e3o de fundamental import\u00e2ncia para a seguran\u00e7a dos membros da comunidade, pois existem alimentos que jamais podem ser ofertados a certos orix\u00e1s ou pessoas. S\u00e3o para n\u00f3s chamados de <em>ew\u00f3s<\/em>, ou seja, proibi\u00e7\u00f5es. Oxal\u00e1, por exemplo, jamais pode comer azeite de dend\u00ea. Existem os <em>ew\u00f3s<\/em> individuais e os coletivos, como tamb\u00e9m os de cada na\u00e7\u00e3o. Em Ketu, o caranguejo \u00e9 a maior proibi\u00e7\u00e3o. O respeito aos <em>ew\u00f3s<\/em> nos possibilita obter bem estar f\u00edsico e espiritual, e a falta deste nos tr\u00e1s desequil\u00edbrio.<br \/>\nO alimento sagrado \u00e9 fonte e s\u00edmbolo de riqueza e vitalidade, bem como um elo fundamental entre o <em>\u00f3run<\/em> (c\u00e9u) e o <em>aiy\u00ea<\/em> (terra), entre os deuses e os homens. Em todos os terreiros a hora da refei\u00e7\u00e3o \u00e9 momento de confraterniza\u00e7\u00e3o e alegria. Compartilhar o ax\u00e9, ou o alimento sagrado, \u00e9 tomar parte da alegria do outro. Contudo, vale ressaltar que a alegria que permeia os rituais n\u00e3o deve ser confundida com a falta de respeito.<br \/>\nOs orix\u00e1s compartilharam da cozinha do escravo, comeram com eles angus e farinha seca, e jamais os rejeitaram. Conheceram a mis\u00e9ria, a fome e os horrores da escravid\u00e3o. Sobreviveram e nos deixaram iguarias variadas, resultados de misturas surpreendentes de temperos, ra\u00edzes, gr\u00e3os, frutos e azeite. Estas misturas se processaram nos alimentos nativos, e o sabor marcante que chegou aos por\u00f5es dos navios negreiros, que comp\u00f5em a famosa comida baiana, expressa a mesma mistura que formou o povo brasileiro, onde se originaram as mais belas e variadas tonalidades que fazem os afro-descendentes desse pa\u00eds.<br \/>\nN\u00f3s das comunidades de terreiros sempre nos preocupamos com a seguran\u00e7a e a qualidade dos alimentos. Embasados nisso, devemos exigir maior controle na qualidade e seguran\u00e7a destes, lutando por pol\u00edticas p\u00fablicas mais r\u00edgidas, fazendo valer nosso direito por uma alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel.<br \/>\nQuero aqui enaltecer o valor das <em>iabass\u00eas<\/em> dos templos de matriz africana, em especial a Mana d\u2019Ogum, que exerce esta fun\u00e7\u00e3o no Il\u00ea Ax\u00e9 Omidew\u00e1, com dedica\u00e7\u00e3o e amor aos orix\u00e1s.<br \/>\nQue Oxossi, o provedor, sob a \u00e9gide (prote\u00e7\u00e3o) de Olorum, mantenha nossas cozinhas fartas de sabores e sabedorias.<\/p>\n<p>Ax\u00e9!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dividir o alimento com os deuses \u00e9 pr\u00e1tica comum em in\u00fameras culturas, bem como convid\u00e1-los para comer conosco. Em muitas civiliza\u00e7\u00f5es antigas, os rituais visavam ofertar parte da colheita \u00e0s suas divindades, de forma lit\u00fargica o alimento tornava-se sagrado. 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