{"id":1135,"date":"2013-02-26T04:23:51","date_gmt":"2013-02-26T04:23:51","guid":{"rendered":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/?p=1135"},"modified":"2013-04-20T05:46:11","modified_gmt":"2013-04-20T05:46:11","slug":"apetrechos-ritualisticos-pano-da-costa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/arquivos\/1135","title":{"rendered":"Apetrecho Ritual\u00edstico &#8211; Pano da Costa"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/candomble.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1136\" title=\"candomble\" src=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/candomble.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/candomble.jpg 300w, https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/candomble-281x300.jpg 281w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>1\u00ba Tamb\u00e9m conhecido como alak\u00e1, pano-de-alak\u00e1 ou pano-de-cuia, o pano-da-costa \u00e9 de origem africana e comp\u00f5e a indument\u00e1ria da roupa de baiana. Seu uso est\u00e1 intimamente ligado ao \u00e2mbito das religi\u00f5es afro-brasileiras e obedece \u00e0s cores simb\u00f3licas dos orix\u00e1s. Sua denomina\u00e7\u00e3o faz refer\u00eancia \u00e0 costa africana, mais precisamente a ocidental, local de origem dos muitos produtos trazidos para o Brasil, especialmente para o rec\u00f4ncavo baiano.<br \/>\nDe formato retangular \u2013 o tamanho padr\u00e3o \u00e9 de dois metros de comprimento por 60 cent\u00edmetros de largura, \u00e9 composto de faixas, tecidas em tear horizontal, depois,costuradas manualmente, formando padr\u00f5es, em geral geom\u00e9tricos e bicolores, que seguem as texturas dos fios de algod\u00e3o combinados com os de seda, caro\u00e1 e outros materiais.<br \/>\nSeguindo esses padr\u00f5es formais, o pano-da-costa \u2013 usado sobre um ombro, pendendo uma das pontas sobre o peito e a outra sobre as costas \u2013 adquire sua identidade de produto que integra a roupa tradicional de baiana e suas varia\u00e7\u00f5es sociais e religiosas. Listrado, liso, estampado ou bordado em richelieu ou renda, \u00e9 por meio dele que a mulher demonstra sua posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica na organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-religiosa dos terreiros.<br \/>\nEm Salvador\/BA, mais precisamente no Terreiro Il\u00ea Ax\u00e9 Op\u00f4 Afonj\u00e1, a tecelagem tradicional do pano-da-costa est\u00e1 ligada ao uso e ao simbolismo s\u00f3cio-religioso do tecido na composi\u00e7\u00e3o das roupas rituais do candombl\u00e9.<\/p>\n<p>2\u00ba Sendo este presen\u00e7a e distintivo do posicionamento feminino nas comunidades religiosas afro-brasileira, o pano-da-costa, n\u00e3o \u00e9 apenas um complemento da indument\u00e1ria da mulher; \u00e9 a marca do sentido religioso nas a\u00e7\u00f5es da mulher como iniciada ou dirigente dos terreiros.<br \/>\nObservemos a profunda conota\u00e7\u00e3o s\u00f3cioreligiosa desse simples peda\u00e7o de tecido, que atua em t\u00e3o diversificadas situa\u00e7\u00f5es, desempenhando pap\u00e9is dos mais significativos e necess\u00e1rios para a sobrevivencia dos rituais africano.<br \/>\nO pano-da costa \u00e9 assim chamado por ter sido um tipo de tecido vindo da costa dos escravos, Costa Mina, Costa do Ouro.<br \/>\nO tecido original foi substituido por outros tipos de tecidos, o que n\u00e3o diminui em nada as fun\u00e7\u00f5es do pano-da-costa.<br \/>\nO pano-da-costa identifica a mulher feita, mesmo que ela n\u00e3o esteja de roupa de santo completa.<br \/>\nA situa\u00e7\u00e3o do pano-da-costa \u00e9 de maior import\u00e2ncia, se colocarmos a presen\u00e7a da mulher como s\u00edmbolo do poder s\u00f3cio religioso e arqu\u00e9tipo dos valores m\u00e1gicos da fertilidade, isso motivado pelas formas anat\u00f4micas caracter\u00edsticas da mulher.<br \/>\nO sentido protetor do pano-da-costa \u00e9 outro aspecto que merece aten\u00e7\u00e3o. As iyawos, ao terminar o per\u00edodo de feitura come\u00e7am a travar seus primeiros contatos com o mundo exterior protegidas pelo pano-da-costa branco, que representa o prolongamento do Ala de Oxala, envolvendo praticamente todo o seu corpo no grande pano-da-costa, procura manter os valores religiosos de sua feitura quando em contato com os valores profanos encontrados extramuros dos terreiros<br \/>\nNos sirruns\/axexes, a mesma prote\u00e7\u00e3o do pano-da-costa, ateado como capa envolvente m\u00e1gica, aparece guardando as mulheres das presen\u00e7as de egum.<br \/>\nO pano-da-costa \u00e9 de uso exclusivo da mulher nos cultos afro-brasileiro, porque uma das principais fun\u00e7\u00f5es do mesmo \u00e9 proteger os org\u00e3o reprodutores das mulheres, das Yamis, j\u00e1 que as energias emanadas das mesmas prejudicam muito todo o aparelho reprodutor da mulher.<br \/>\nNos rituais de sirrum\/axexe as mulheres usam dois panos-da-costas branco: um protegendo seus ventres e outro sobre os ombros como uma capa que envolve todo o seu colo e seios.<br \/>\nNo Rio de Janeiro convencionou-se que o pano-da-costa deve ser usado de acordo com a idade de santo, isto \u00e9, s\u00f3 usa preso acima dos seios aquelas que ainda s\u00e3o yaos. Esta errado, pano-da-costa \u00e9 para ser usado dessa forma mesmo independente da idade de feitura.<br \/>\nDe alguns anos para c\u00e1 os homem aderiram o pano-da-costa, mas nenhum deles at\u00e9 agora explicou o porque de usa-lo e nem podem explicar pois o mesmo \u00e9 de uso exclusivamente feminino.<br \/>\nObservem que as santas mulheres usam o pano-da-costa, os santos homens usam o pano-da costa amarrados no ombro.<br \/>\nEm algumas casas encontramos abians usando pano da costa, esse procedimento esta errado. As abians ainda n\u00e3o tiveram seus chakras abertos durante uma feitura, portanto as mesmas n\u00e3o necessitam dessa prote\u00e7\u00e3o ainda.<br \/>\nTexto: Yatemi Jurema de Oya (in memoriam)<\/p>\n<p>3\u00ba No caso das Egb\u00f3mis, o pano da Costa deve ser colocado na cintura elegantemente ou sobre o peito, jamais deve ser enrolado ou torcido, feito uma faixa ou Oj\u00e1, na cintura.<br \/>\nUma iniciada deve saber usar o pano da Costa, pois este \u00e9 uma pe\u00e7a do vestu\u00e1rio muito importante. Outro fato relevante \u00e9 quanto \u00e0 estampa e cor do tecido. S\u00e3o adequadas as estampas em listras e quadros que lembram as formas presentes na indument\u00e1ria nigeriana. Quando feitos de tecido liso, devem ser de cores claras: branca, bege, rosa ou azul claro.<br \/>\nNunca devem ser de cores quentes, berrantes, de seda ou estampados vivos, o que causaria \u201crisos\u201d entre as iniciadas mais antigas.<br \/>\nPano da Costa na cintura ou no peito \u00e9 demonstra\u00e7\u00e3o de trabalho, assim usados no barrac\u00e3o, quando em fun\u00e7\u00e3o religiosa.Caso contr\u00e1rio, no dia-a-dia do terreiro pode ser \u201cjogado\u201d sobre o ombro direito e se mant\u00e9m esticado ao longo do tronco. N\u00e3o se \u201cdan\u00e7a\u201d sem esta pe\u00e7a da indument\u00e1ria.<br \/>\nMesmo fora do trabalho, para visita ou passeio o seu uso \u00e9 indispens\u00e1vel. Em casas tradicionais, quando uma iniciada chega sem o pano da Costa \u00e9 comum a propriet\u00e1ria do terreiro emprestar um \u00e0 visitante, que, em sinal de educa\u00e7\u00e3o ou respeito, coloca-o sobre o ombro direito ou, se entrar na roda, usa-o de maneira adequada \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o dentro da hierarquia do Candombl\u00e9;<br \/>\nO pano da Costa \u00e9 a pe\u00e7a de maior significado hist\u00f3rico dentro do vestu\u00e1rio africano, em conjunto com o torso. O uso de saia, Camisu ou bata e pano da Costa s\u00e3o indispens\u00e1veis dentro do Ax\u00e9&#8230; A maneira de amarrar, colocar ou \u201cenrolar\u201d o pano varia de acordo com a situa\u00e7\u00e3o, o ritual desenvolvido ou a posi\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica;<br \/>\nIy\u00e1w\u00f4 n\u00e3o usa o pano na cintura, mas sim enrolado no peito.<br \/>\n(Parte do livro Sobre o Signo de Omolu &#8211; Samuel Abrantes)<\/p>\n<p>4\u00ba Pano da Costa \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o do termo &#8220;Pano da Costa do Santo&#8221;, e referia-se aos panos de adorno, esp\u00e9cie de xales longos, que integravam o traje t\u00edpico das africanas e das crioulas da Bahia.<br \/>\nChamam-se panos da costa, aos tecidos artesanais de origem africana. Tais como os demais produtos importados da \u00c1frica,sab\u00e3o da Costa, limo da Costa, b\u00fazio da Costa, e que tinham uso popular, s\u00e3o conhecidos pelo adjetivo &#8220;da Costa&#8221;, muito embora a origem de alguns deles seja v\u00e1ria e ainda controversa.<br \/>\nA princ\u00edpio esta denomina\u00e7\u00e3o estendia-se a todos os tecidos importados da \u00c1frica, qualquer que fosse a sua aplica\u00e7\u00e3o; o uso lhe foi restringindo o campo at\u00e9 a limita\u00e7\u00e3o ao xale. O pano da Costa \u00e9, portanto, uma pe\u00e7a de vestimenta tecida de algod\u00e3o, l\u00e3, seda ou r\u00e1fia \u2014 \u00e0s vezes em dupla associa\u00e7\u00e3o desses elementos \u2014 que a crioula baiana deita sobre pontos diversos das suas vestes, \u00e0s vezes, ajustando-o ao corpo em formas convencionais e relativas \u00e0s diferentes fun\u00e7\u00f5es que se apresta a desempenhar momentaneamente.<\/p>\n<p>5\u00ba \u00c9, em suma, um xale retangular, cuja disposi\u00e7\u00e3o informa ao que vai a sua portadora.<br \/>\n\u00c9 usado de v\u00e1rias formas: sobre as costas, jogados sobre os ombros, usados a tiracolo, cruzados na frente, amarrados sobreo o busto ou na cintura, sobre as saias.<br \/>\nTem uma variedade infinda, seja nas cores ou nas padronagens.<br \/>\nA \u00c1frica negra tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o textil, onde a variedade de materiais \u00e9 t\u00e3o grande quanto os estilos encontrados. Utilizados como roupa, os tecidos serviram tamb\u00e9m de moeda, foram utilizados como mensageiros e objetos est\u00e9ticos.<br \/>\nDiz-se com frequ\u00eancia que os Africanos eram mais escultores que pintores : os tecidos podem ser considerados, na \u00c1frica, substitutos da pintura.<br \/>\nOs primeiros &#8220;tecidos&#8221; foram realizados com casca de \u00e1rvore batida; muito difundidos antigamente numa grande parte do continente, eles s\u00e3o encontrados atualmente sobretudo nas popula\u00e7\u00f5es da \u00c1frica central, onde s\u00e3o, na maioria das vezes, decorados com tintas vegetais.<br \/>\nA tecelagem s\u00f3 foi desenvolvida bem mais tarde, a partir do s\u00e9culo 11, mesmo se tecidos ricamente trabalhados j\u00e1 eram importados dos pa\u00edses da \u00c1frica do norte, do Egito e da pen\u00ednsula ar\u00e1bica para vestir as popula\u00e7\u00f5es das grandes cidades portu\u00e1rias das costas orientais assim como os membros das classes nobres dos reinos do deserto do Sahel.<br \/>\nNesta mesma \u00e9poca, a expans\u00e3o do isl\u00e3, introduzindo novos c\u00f3digos vestiment\u00e1rios, desempenhou um papel importante no desenvolvido que sofreram os tecidos, sobretudo na \u00c1frica ocidental.<br \/>\nOs tecidos de fabrica\u00e7\u00e3o local constitu\u00edram durante muito tempo bens raros e preciosos; marcas de poder e de riqueza, reservados a uma elite, eles foram integrados como moeda para troca, gra\u00e7as aos quais era poss\u00edvel estimar o pre\u00e7o de uma mercadoria e compr\u00e1-la.<br \/>\nDesde sua chegada nas costas do continente, no s\u00e9culo 15, os traficantes europeus exploraram as possibilidades comerciais que ofereciam esta nova &#8220;moeda&#8221; e encorajaram indiretamente a produ\u00e7\u00e3o textil local devido \u00e0 sua utiliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA quantidade de tecidos detidos por cada fam\u00edlia foi considerada durante muito tempo uma marca de riqueza e de poder em muitas sociedades africanas.<br \/>\nNas regi\u00f5es onde o isl\u00e3 se instalou, como em todas as outras regi\u00f5es onde o tecido se transforma em h\u00e1bito vestimentar, a metragem e o peso do produto s\u00e3o proporcionais \u00e0 fortuna e ao poder daquele que os possui: se este faz parte das pessoas influentes da comunidade, chefe pol\u00edtico ou grande comerciante, sua numerosa corte que o segue quando ele sai deve ser como ele, enrolada em abundantes tecidos.<br \/>\nO poder se mede tamb\u00e9m na possibilidade de dispor de seus bens e de distribui-los e, entre eles, os tecidos constituem presentes excepcionais.<br \/>\nDar tecidos como presente possibilita a solu\u00e7\u00e3o de in\u00fameros conflitos e libera as tens\u00f5es. Esses presentes s\u00e3o feitos em momentos importantes da vida de cada um (maioridade, casamento, nascimento dos filhos).<br \/>\nA ascens\u00e3o social ou religiosa ou o pagamento de servi\u00e7os n\u00e3o pode acontecer sem a distribui\u00e7\u00e3o de tecidos. Para manter boas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia, os amigos, os vizinhos, para ser admitido numa seita, cada pessoa \u00e9 incitada a dar tecidos e a receb\u00ea-los.<br \/>\nA posse de uma grande quantidade de tecidos aumenta o prest\u00edgio do seu propriet\u00e1rio, o que lhe possibilita uma maior participa\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria, onde o princ\u00edpio da d\u00edvida \u00e9 a base de toda rela\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica.<br \/>\nMas o tecido n\u00e3o \u00e9 somente moeda ou roupa: ele representa tamb\u00e9m, de acordo com seu estampado, uma esp\u00e9cie de texto onde podem ser &#8220;lidas&#8221; a identidade social e religiosa daquele que o usa: a decora\u00e7\u00e3o, seja ela impressa, tingida, pintada, tecida ou costurada, representa os espa\u00e7os, os objetos, os seres e as metamorfososes presentes na mitologia.<br \/>\nPor este motivo, os tecidos t\u00eam um papel importante na vida ritual: os mortos, mesmo no seio de sociedades que n\u00e3o possuem tecel\u00f5es, s\u00e3o vestidos ou envolvidos em tecidos, tornando-se assim protegidos pela palavra dos vivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1\u00ba Tamb\u00e9m conhecido como alak\u00e1, pano-de-alak\u00e1 ou pano-de-cuia, o pano-da-costa \u00e9 de origem africana e comp\u00f5e a indument\u00e1ria da roupa de baiana. 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