{"id":747,"date":"2012-10-05T13:55:45","date_gmt":"2012-10-05T13:55:45","guid":{"rendered":"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/?p=747"},"modified":"2012-10-05T13:55:45","modified_gmt":"2012-10-05T13:55:45","slug":"conversa-entre-exu-e-oxala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/arquivos\/747","title":{"rendered":"Conversa entre Exu e Oxal\u00e1"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><a href=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/dia.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-748\" title=\"dia\" src=\"http:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/dia.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"218\" \/><\/a><\/p>\n<p>&#8220;O c\u00e9u e a terra fundiam-se no horizonte distante, parecendo uma coisa s\u00f3, como se n\u00e3o houvesse separa\u00e7\u00e3o entre o mundo espiritual e o material, a consci\u00eancia individual e a c\u00f3smica. Sentado sobre uma pedra em uma enorme montanha, de cabe\u00e7a baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fen\u00f4meno da natureza e refletia sobre o seu intermin\u00e1vel trabalho.<\/p>\n<p>&#8211; Como \u00e9 dif\u00edcil a humanidade \u2013 pensou em certo momento \u2013 parece nunca estar satisfeita, est\u00e1 sempre querendo mais e, em sua ess\u00eancia ego\u00edsta desarmoniza tudo, tudo&#8230; Tudo que era para ser t\u00e3o simples acaba t\u00e3o complicado.<\/p>\n<p>Com os olhos habituados a enxergar na escurid\u00e3o e na dist\u00e2ncia, Exu observou cada canto daqueles arredores. Viu pessoas destruindo a si mesmas atrav\u00e9s de v\u00edcios variados, viu maldades premeditadas e outras praticadas como se fossem atos da mais perfeita normalidade. Viu injusti\u00e7as, principalmente contra os mais fracos e indefesos. Com seus ouvidos, tamb\u00e9m atentos a tudo, ouviu mentiras, palavras de maledic\u00eancia, gritos de \u00f3dio e sussurros de trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Exu suspirou.<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu o diabo da humanidade? \u2013 pensou ironicamente, ao lembrar o quanto era associado \u00e0 figura do dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Passou horas observando coisas que estava habituado a ver todos os dias: mentiras, fraudes, corrup\u00e7\u00e3o, trai\u00e7\u00f5es, inveja, e uma gama enorme de sentimentos negativos.<\/p>\n<p>Foi quando estava imerso nesses pensamentos que Exu ouviu uma voz ao seu lado, dizendo naquele tom austero, por\u00e9m complacente:<\/p>\n<p>&#8211; Laroy\u00ea, Senhor Falante.<\/p>\n<p>Exu ergueu os olhos e vislumbrou a figura altiva de Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c8pa B\u00e0b\u00e1 \u2013 respondeu Exu, fazendo um pequeno movimento com a cabe\u00e7a, em sinal de respeito.<\/p>\n<p>&#8211; Noto que est\u00e1 pensativo, amigo Exu \u2013 falou Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>Exu respirou fundo, contemplou novamente o horizonte e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Trabalhamos tanto&#8230; e incansavelmente, mas os homens parecem n\u00e3o valorizar nosso esfor\u00e7o.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 moveu os l\u00e1bios para dizer algo, mas antes que isso acontecesse, Exu, como que prevendo o que seria dito, continuou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o falo em tom de reclama\u00e7\u00e3o, sou um trabalhador incans\u00e1vel e o amigo sabe disso. \u00c9 com prazer que levo o que tem ser levado e retiro o que deve ser retirado. \u00c9 com satisfa\u00e7\u00e3o que abro ou fecho os caminhos, de acordo com a necessidade de cada um, \u00e9 com resigna\u00e7\u00e3o que acolho sobre minhas costas largas a culpa do mal que muitos esp\u00edritos encarnados e desencarnados fazem, n\u00e3o reclamo do meu trabalho. Sou Exu, para mim n\u00e3o existe frio ou calor, cansa\u00e7o ou pregui\u00e7a, existe apenas a necessidade de cumprir a tarefa para qual fui designado.<\/p>\n<p>&#8211; Se mostra t\u00e3o resignado e, no entanto, parece que deixa-se abater pelo des\u00e2nimo \u2013 comentou Oxal\u00e1, apoiando-se em seu paxor\u00f4.<\/p>\n<p>Exu soltou uma gargalhada, ao que Oxal\u00e1 deu um leve sorriso, com um movimento quase impercept\u00edvel no canto direito dos l\u00e1bios:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou resignado nem tampouco estou desanimado \u2013 falou Exu \u2013 estou pensativo sobre pouca intelig\u00eancia dos homens. Veja s\u00f3: como respons\u00e1vel pela aplica\u00e7\u00e3o da Lei C\u00e1rmica observo muita coisa. Observo n\u00e3o apenas o sofrimento que alguns homens imp\u00f5em a si mesmos, mas vejo tamb\u00e9m as incessantes oportunidades que o Universo d\u00e1 a cada um dos seres que habitam a Terra. O aprendizado que tanto precisam lhes \u00e9 dado por bem, mas quase nunca enxergam pelo amor, ent\u00e3o lhes \u00e9 dada a oportunidade de aprender pela dor, mas geralmente s\u00f3 lembram a li\u00e7\u00e3o enquanto a dor est\u00e1 a alfinetar sua carne. Com o al\u00edvio vem o esquecimento e todos os erros e v\u00edcios voltam a aflorar.<\/p>\n<p>Oxal\u00e1 fez men\u00e7\u00e3o de dizer algo, mas com o dedo em riste entre os l\u00e1bios, novamente Exu o impediu de falar.<\/p>\n<p>&#8211; Ou\u00e7a \u2013 disse Exu, colocando a m\u00e3o em concha na orelha, como se ele e Oxal\u00e1 precisassem disso para ouvir melhor. E ambos ouviram o som que vinha da Terra. O som da inveja, dos maus sentimentos, da maledic\u00eancia, da promiscuidade, da gan\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Exu deu outra gargalhada e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Percebe? Temos trabalho por muitos s\u00e9culos ainda.<\/p>\n<p>&#8211; E isso n\u00e3o \u00e9 bom? \u2013 perguntou Oxal\u00e1, que dessa vez n\u00e3o deixou Exu responder e continuou: Pobres homens, ignorantes da pr\u00f3pria grandeza espiritual e da simplicidade do Universo. Se n\u00e3o desconhecessem tanto o funcionamento das coisas, seriam mais felizes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o est\u00e3o preocupados em discernir o bem do mal \u2013 resmungou Exu.<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea est\u00e1, Senhor Falante? \u2013 tornou Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>Mais uma vez Exu gargalhou.<\/p>\n<p>&#8211; Para mim n\u00e3o existe o bem ou o mal. Existe o justo, bem sabe disso.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o por que tenta exigir esse discernimento dos pobres homens?<\/p>\n<p>&#8211; Eu conhe\u00e7o os caminhos \u2013 respondeu Exu um tanto irritado \u2013 para mim n\u00e3o existem obst\u00e1culos, todos os caminhos se abrem em encruzilhadas. Para mim as portas nunca se fecham e as correntes nunca prendem. Conhe\u00e7o o sutil mist\u00e9rio que separa aquilo que chamam de bem daquilo que chamam de mal. N\u00e3o sou manique\u00edsta, n\u00e3o sou benevolente, pois n\u00e3o dou a quem n\u00e3o merece, mas tamb\u00e9m n\u00e3o sou cruel, pois sempre ajo dentro da Lei. Os homens, coitados, acreditam na vis\u00e3o simplista do bem e do mal, como se todo o Universo, em sua &#8220;complexa simplicidade&#8221; se resumisse apenas entre o bem e o mal.<\/p>\n<p>&#8211; Pobres homens \u2013 repetiu Oxal\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Pobres homens \u2013 concordou Exu \u2013 mesmo olhando o Universo de uma forma t\u00e3o simplista, dividido apenas entre bem e mal, acabam sempre demonizando tudo, achando que o mal \u00e9 o melhor caminho para conseguir o que desejam ou ent\u00e3o acreditam que s\u00e3o eternas v\u00edtimas do mal. E o que \u00e9 pior, quase sempre eu \u00e9 que sou o culpado.<\/p>\n<p>&#8211; Mas \u00e9 voc\u00ea o respons\u00e1vel pelo mal? \u2013 perguntou Oxal\u00e1, admirando o horizonte.<\/p>\n<p>&#8211; Sou justo, apenas isso \u2013 respondeu Exu.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o seria a justi\u00e7a uma prerrogativa de Xang\u00f4? \u2013 tornou o maior dos orix\u00e1s.<\/p>\n<p>Exu olhou fundo nos olhos de Oxal\u00e1 e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Estou a servi\u00e7o do Universo, de cada uma das for\u00e7as que o comp\u00f5e, inclusive do Senhor da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8211; Isso significa que trabalha em harmonia com o Universo, caro Exu?<\/p>\n<p>&#8211; Imaginei que soubesse disso \u2013 respondeu Exu, ir\u00f4nico como sempre. &#8211; &#8211; &#8212; Acho que sempre soube. Quando observo o horizonte e vejo o c\u00e9u fundindo-se \u00e0 Terra, percebo o quanto o material pode estar ligado ao espiritual. Mas tamb\u00e9m lembro que o sol vai raiar e acredito que apesar de todas as dificuldades que os pr\u00f3prios homens criam, \u00e9 poss\u00edvel acender a chama da f\u00e9 em seus cora\u00e7\u00f5es. Percebo o quanto eles s\u00e3o falhos, mas percebo tamb\u00e9m o quanto s\u00e3o fr\u00e1geis e precisam de n\u00f3s \u2013 e nesse momento pousou a m\u00e3o sobre o ombro de Exu \u2013 sejam dos que trabalham na luz ou na escurid\u00e3o, pois tudo faz parte do Uno e se inter-relacionam. O mesmo homem que hoje est\u00e1 nas profundezas mais abissais, amanh\u00e3 pode ser o mensageiro da luz.<\/p>\n<p>Exu olhou para os olhos de Oxal\u00e1, como se n\u00e3o estivesse concordando, mas dessa vez foi Oxal\u00e1 quem n\u00e3o deixou que o outro falasse, prosseguindo com sua narrativa:<\/p>\n<p>&#8211; Se n\u00e3o fossem os valorosos guardi\u00f5es que trabalham nas regi\u00f5es trevosas, dificilmente os que ali sofrem um dia alcan\u00e7ariam o benef\u00edcio da luz. Se houvesse apenas a luz, n\u00e3o haveria o aprendizado, que tem como ponto de partida o desconhecimento, as trevas. O Universo t\u00e3o simples \u00e9 ao mesmo tempo t\u00e3o inteligente, que mesmo n\u00f3s, que observamos os homens a uma dist\u00e2ncia grande, \u00e0s vezes nos surpreendemos com sua magnitude. Os homens s\u00e3o frutos que precisam amadurecer e voc\u00ea, amigo Exu, \u00e9 a estufa que os aquece at\u00e9 o ponto certo da matura\u00e7\u00e3o e eu sou a m\u00e3o que os colhe como frutos amadurecidos.<\/p>\n<p>&#8211; Quem diria que trabalhamos em harmonia? \u2013 disse Exu em meio a um sorriso \u2013 acreditam que vivemos a digladiar quando na verdade trabalhamos em busca de um mesmo objetivo: o aprimoramento da ra\u00e7a humana.Oxal\u00e1 s\u00f3 n\u00e3o soltou uma gargalhada porque n\u00e3o era esse seu h\u00e1bito (e sim o de Exu), mas disse sem conseguir esconder o contentamento:- Ent\u00e3o, companheiro Exu, n\u00e3o temos porque lamentar. A ignor\u00e2ncia em que vivem os homens \u00e9 sinal de que ainda temos trabalho a realizar. A pouca sabedoria que possuem significa que ainda est\u00e3o muito pr\u00f3ximos ao ponto de partida e cabe a n\u00f3s, n\u00e3o importa se chamados de &#8220;direita&#8221; ou &#8220;esquerda&#8221;, auxili\u00e1-los em sua caminhada, que \u00e9 muito longa ainda. Apenas contemplar as mazelas dos cora\u00e7\u00f5es humanos n\u00e3o ir\u00e1 auxili\u00e1-los em nada. Sou a luz que guia os olhos da humanidade e voc\u00ea \u00e9 o movimento que n\u00e3o a deixa est\u00e1tica. Se pararmos por um segundo sequer, atrasaremos em s\u00e9culos e s\u00e9culos o progresso da ra\u00e7a humana, que tanto depende de n\u00f3s.Nesse momento o sol come\u00e7ou a raiar timidamente no horizonte, separando o c\u00e9u e a Terra. Exu levantou-se da sua pedra e se p\u00f4s a caminhar montanha abaixo.- Aonde vai, Senhor Falante? \u2013 perguntou Oxal\u00e1, como se n\u00e3o soubesse.- Vou trabalhar, Senhor dos Orix\u00e1s \u2013 respondeu Exu gargalhando novamente \u2013 Esqueceu que sou um trabalhador incans\u00e1vel e que trabalho em harmonia com o Universo, mesmo que ele me imponha a luz do sol?Oxal\u00e1 n\u00e3o respondeu, mas esbo\u00e7ou um sorriso t\u00edmido. Assim trabalhava o Universo: sempre em harmonia. Os homens, mesmo ainda presos a tantos conceitos prim\u00e1rios, trilhavam os primeiros passos em dire\u00e7\u00e3o ao progresso, pois n\u00e3o estavam \u00f3rf\u00e3os de seus orix\u00e1s e protetores.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O c\u00e9u e a terra fundiam-se no horizonte distante, parecendo uma coisa s\u00f3, como se n\u00e3o houvesse separa\u00e7\u00e3o entre o mundo espiritual e o material, a consci\u00eancia individual e a c\u00f3smica. Sentado sobre uma pedra em uma enorme montanha, de cabe\u00e7a baixa e olhos apenas entreabertos, Exu observava o fen\u00f4meno da natureza e refletia sobre &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link block-button\" href=\"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/arquivos\/747\">Continue lendo &raquo;<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-747","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/747","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=747"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/747\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":750,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/747\/revisions\/750"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=747"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=747"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/omidewa.com.br\/public_html\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=747"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}